Primeiro: um fator de segurança do ciclista (ou de qualquer cidadão) está na forma como é realizada a ultrapassagem, ou seja, com o devido cuidado na aproximação, na ultrapassagem e no distanciamento, o que envolve muito mais cuidados que só a distância lateral do ciclista (ou de quem quer que seja). Pela lei do 1.5 metros, o motorista (ou o condutor de qualquer veículo, o que inclui bicicletas) que ultrapassar por completo o ciclista já não se encaixa mais nesta lei dita protetora do ciclista. Ou, pela ideia que se vende, a distância lateral para o ciclista na ultrapassagem é o que realmente importa para sua segurança. Será?
Quais as causas das ocorrências fatais envolvendo ciclistas? Ultrapassagem é o principal fator? Temos dados precisos de perícia e legistas que dêem a causa correta? Os locais são preservados? Em quanto tempo a perícia técnica chegou ao local? O relatório foi corretamente preenchido? A ficha de preenchimento é adequada? Quem preenche tem formação e treinamento específico? Há dados precisos?
Quais são as causas reais para temos 26 ciclistas mortos na cidade de São Paulo? Quantos motoristas foram responsáveis? Quantos ciclistas foram responsáveis, perante a lei, pela ocorrência e a própria fatalidade? Ainda: quantos acidentes foram causados por erros na engenharia de segurança no trânsito? Sobre problemas de engenharia de trânsito nunca ouvi uma palavra sequer. É possivel encher aqui de perguntas que nunca são feitas nem respondidas. Nos falta o "E o que mais?".
Como ciclistas aviso a todos: É muito fácil derrubar num a alegação que o motorista ultrapassou o ciclista a menos de 1.5 metro. Simples: para provar a infração o ciclista tem que estar munido de documentação corretamente colhida, foto ou filme, no momento da ultrapassagem, que deve ser realizada utilizando uma régua aprovada e selada pelo IMETRO, apoiada no ângulo correto, 90° do solo e 90° do longitudinal da bicicleta, a partir do ponto mais largo de um ciclista pedalando, o que está na ponta do guidão ou de sua mão. Não recomendo que ciclistas pedalem com uma régua presa ao guidão. Quem me deu esta explicação foi um senhor ex Conselho Nacional de Trânsito logo após a aprovação desta lei.
Os condutores de automóveis ou motos desrespeitam o ciclista ou não conseguem cumprir uma lei que é 'complicada' de se cumprir? Sim, como ciclista experiente digo, o número de ultrapassagens próximas ao ciclista aumentou um pouco, mas não é regra. Diga-se a verdade, o espaço para todos nas vias públicas vem diminuindo sensivelmente em razão do número de veículos circulantes, que é absurdo e não para de crescer. Em certos horários eu, ciclista com 50 anos de pedal no meio das ruas, não tenho espaço para passar tantos são os automóveis.
E aí vem o discurso sobre mais ciclovias e ciclofaixas para dar segurança aos ciclistas. Até ciclistas do meio da bicicleta concordam que boa parte do sistema cicloviário de São Paulo, 700 e tantos km, é inútil, não serve para nada, não tem ciclista circulando. Não é sobre quantos km a mais, mas sobre como oferecer mais segurança ao ciclista. Há uma enorme diferença aí. Segurança se faz com qualidade, qualidade se faz com dados precisos que serão usados para corrigir erros. Segurança não se faz com formulas mágicas ou populistas. Segurança, a verdadeira, não se apoia em eu acho, nem em pesquisas jogadas para cima que atendem aos medos particulares.
Fato: sim, nossas cidades poderiam ser mais amigáveis aos ciclistas. Nossos números são ruins? Poderiam ser melhores? Sim, com certeza. Agora, como ciclista afirmo com todas as letras: a imensa maioria dos motoristas não quer se envolver em acidentes ou discussões, o que inclui evitar desrespeitar ciclistas, por mais indisciplinados que estes sejam.
Confesso que estou de saco cheio de ouvir "A culpa é do outro. Eu estou sendo desrespeitado". Será? Este discurso destrói um olhar aberto para as respostas que precisamos. O que estamos vivendo não será um sempre bater nas mesmas teclas que já se provaram disfuncionais?
































