terça-feira, 13 de outubro de 2026

Romaria para Aparecida, perigosa?

Comecemos pelas más notícias, que é o que mais cola. A Romaria para Aparecida teve três mortos, sendo dois assassinatos e um atropelamento. E, mais uma vez, o consenso geral é que a romaria pela Rodovia Dutra é um perigo para os romeiros. 



Fazendo uma análise fria:

O santuário de Aparecida recebeu 494,6 mil devotos de Nossa Senhora entre os dias 3 e 12 de outubro. O aumento é de 54% em relação ao ano passado, quando 320,6 mil fiéis foram ao santuário no mesmo período. Este ano, cerca de 40 mil devotos fizeram a peregrinação a pé, segundo a Polícia Rodoviária Federal. Só neste domingo, 12, cerca de 152 mil pessoas assistiram às sete missas e outras atividades religiosas desenvolvidas no santuário. Fonte e texto: Estadão 

Oficialmente foram 40 mil na estrada com três mortes violentas, ou seja, 7.5 / 100 mil mortes violentas, o que está um pouco abaixo e não muito longe dos números da violência no Estado de São Paulo. Tem quem vá ler este meu início como uma forma horrorosa, desumana, de pensar. Desculpem, mas muito pelo contrário. Resolve-se problemas graves com frieza, não com emoções. Colocou emoção vira emocional, não racional, lógico, sensato, o verdadeiro caminho para se chegar ao resultado desejado, correto, positivo.
Eu truco que foram 40 mil fazendo a peregrinação a pé. A diferença que se viu na estrada, o que o pessoal dos PAP, Ponto de Apoio ao Peregrino, mais todos romeiros experientes afirmaram, é que o número de romeiros na estrada, de São Paulo a Aparecida, dobrou. A diferença para o ano passado foi gritante. Duvido que todos nós estejamos errados.

Sim, fazer a pé ou pedalando a romaria de Aparecida não é algo que se possa dizer seguro, mas os números de certa forma apontam uma outra realidade. Gostaria de ter números atualizados sobre a segurança de pedestres em meio urbano para fazer uma comparação. 
Vamos lá. As avenidas paulistanas têm limite de velocidade de 50 km/h. Tem várias cidades que o limite de velocidade é mais alto. Quando você espera o sinal abrir para cruzar não fica próximo ao meio fio? Os ônibus não passam muito perto? Mas aí ninguém fala que se sente inseguro. Ok, 50 km/h é bem diferente de 100 km/h, ônibus é diferente de carreta.

Mas uma coisa é fato: a cultura do medo é muito interessante para muitos, de ativistas às autoridades. E afirmo que tem gente que lucra com a venda do medo, do sentir-se inseguro, e lucram muito.

Eu, Arturo, não tenho medos e receios de pedalar na Dutra, de fazer a romaria? Óbvio que tenho. Alguns tem fundamentos, outros definitivamente são produto de indução. Meu maior medo? Assalto. Segurança no trânsito? Muito menos. Óbvio que seria muito melhor se não tivesse todo aquele trânsito zuando na orelha.

O que fazer?  
Ponderações:

Como estão as investigações dos crimes ocorridos nas romarias passadas? Quais resultados? O que faltou?

Como a inteligência da polícia trabalhou a segurança dos romeiros nos meses anteriores a romaria? Sim, a polícia trabalhou, disto tenho certeza porque ouvi vários depoimentos, inclusive de pessoas ligadas a organização dos pontos de apoio.

Conversei com polícias durante a romaria. Todos responderam que em vários aspectos têm as mãos atadas, o que não duvido. Aliás, em Pindamonhangaba presenciei romeiros simplesmente desprezando as orientações de um Rodoviário Federal e seguindo em frente, para meu espanto. "Não posso fazer nada", reclamou resignado o Federal.

É fato que os limites sociais deste país derreteram. Todos. "Que se dane o outro" impera impiedosamente.

Mesmo os bandidos num passado distante tinham um código de conduta, uma noção de dignidade, de limites. Foi-se. "Perdeu! Perdeu! Dá ou mato!". Hoje impera a estupidez generalizada.

Segurança no trânsito? Alguém realmente se importa? Quantos pensam no próximo?

Mobilidade:

Muito se fala em segregar, criar um espaço específico para os romeiros, 134 km segregados. A ideia corrente é retirá-los da Rodovia Dutra.

Como trabalhei com mobilidade, deixo o recado: segregar nem sempre é a melhor solução. Segregar simplesmente tem tudo para gerar outros problemas, alguns tão ou mais graves quanto os que se tem agora. Segregação feita pela metade ou segregar para tirar eles da frente, uma eterna regra brasileira. Temos inúmeros exemplos de segregação mágica realizada de qualquer forma que deu bem errado.

Pois então...

Pergunta que não quer calar: vão construir passarelas em todos cruzamentos de estradas? Tem verba? Tem verba para romeiros e nunca teve verba para os trabalhadores que circunlam a pé ou pedalando no dia a dia, na mesma rodovia, durante todo ano?

"A Dutra virou uma avenida", afirmação corrente entre autoridades. Se virou uma avenida, se corta cidades ao meio, será que não tem que ser tratada como trecho urbano, portanto levando em consideração pedestres, ciclistas e mobilidades eletricas que há muito circulam ali?

Outra pergunta: a segregação vai ser larga o suficiente para segregar os ciclistas dos pedestres? E o que vão fazer o que com os ciclistas que recusarem entrar na ciclovia? Ciclistas esportistas que treinam serão obrigados a usar o novo espaço segregado, então pedestres conviverão com ciclistas pedalando a 30, 40, 50 km/h, quando não mais rápido, é isto? Como fica, bicicleta é de fato um veículo, como está no CTB, ou deve ser visto como o que? E com o estouro da boiada das eletricas, todas, como fica a segregação? Etc...

Segregar é uma palavra linda, mágica, a dita solução inteligente de tudo, até a realidade bater na porta. E estejam certos, bate. Mobilidade segura se constrói com conhecimento e inteligência, muitas vezes com soluções que não parecem lógicas. Segregação para dar os resultados esperados custa caro, bem caro, tem que ser um trabalho multi disciplinar, uma mudança de comportamento coletivo. Mudança de comportamento no meio deste "nós ou eles"?

Fora a questão legal envolvida, que como todos sabemos, estácomo fralda de bebe: você nunca sabe o que vai acontecer. Tem fralda que..., despulpem, tem lei que cola e lei que não cola. O que vai sair disto?

Não haverão outras alternativas? Outras soluções? O que diz a experiência internacional? O que se pode fazer dentro da lei? Afirmo com todas as letras: muito! E não precisa pensar fora da própria lei. Basta sair da caixinha.

Para sustentar a minha preocupação com esta obseção por segregar, poderia encher aqui de perguntas pertinentes.

A que mais me pega é: "Vão destruir uma importante tradição do povo?"

O que eu faria? Já escrevi; eu acalmaria a via Dutra durante os 10 dias da romaria de Aparecida.


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