E por uma ironia do destino vou calibrar o pneu de minha bicicleta, vem um sujeito em direção ao carro estacionado ao lado, pergunto se estou atrapalhando ele entrar no carro, e a figura é um mentor. Começamos a conversar sobre besteiras, minha vinda de São Paulo pedalando, a romaria... E não faço ideia de onde ele tirou que aquela viagem era um recomeço. Sim, ele dá mentorias, eu sei. E a conversa mudou de canal e bateu no que ele provavelmente deve fazer bem. Não sei porque, mas ficamos exatos 45 minutos conversando no cimento de um posto de gasolina, de baixo de um racha coco.
45 minutos exatos. Depois de uma pedalada para relaxar as pernas dos 100 km exatos do dia anterior, primeiro trecho de mais uma romaria. A 20 km do hotel de São José dos Campos veio surgindo em direção a todos romeiros uma nuvem preta, pesada, e em fuga dela disparei com quase tudo que me restava das pernas e forças.
Feliz por não ter tido cãibras, acordei, tomei café e saí pedalando bem de leve para relaxar e comprar mais uma câmara de reserva. Pernas cansadas, pedal perdido pela cidade, sei lá onde fui e que horas são. Relaxa. Entro no restaurante, estão no começo da arrumação para o almoço. "Desculpe, atrasou o almoço?" "Não, o almoço é a partir das 11:30 h." "Ué, que horas são?" "10:45". Agradeci, disse que voltaria, o que não pretendia, estava muito cansado, queria voltar para meu quarto do hotel, e fui calibrar o pneu.
Que drama foi construir esta romaria na minha cabeça! Quantos dias de repetir as mesmas perguntas, procurar as mesmas respostas, fazer um planejamento que qualquer um com um mínimo de capacidade de organização jamais chamaria de planejamento. Uma ansiedade que não é só minha, que a cada um toma sua forma. Ótima desculpa esfarrapada, os outros fazem igual, pesa menos. Ansiedade do sair, sim sair, o começar algo, o que seja. Quebrar uma regra. A mesma viagem, as mesmas situações já bem conhecidas, mas neste mundo tão acelerado, velocidade única, fibra ótica digital, desligar, desconectar, a mesma viagem anseia medos. Partir. Nada de mais, a não ser abrir o portão, sair, trancar e ir. Ir, que começo mais ansioso.
Amyr Klink confessa sempre que a partida é um dos momentos mais difíceis de qualquer viagem. A diferença é que partir é simplesmente uma ação que parte de si próprio. Os outros momentos difíceis são ocorrências, imprevistos, situações externas.
Cruzar o oceano a remo? Assustador. Soltar as amaras?
Permanecer num trabalho formal? Manter as amarras no 8h/dia X 4 dias/semana ou largar tudo ou ir ao mar? Invejo Amyr; ir ao mar.
A piscina do hotel é ótima. Relaxa. Sento na borda, coloco os pés na água fria. Entro ou não entro. Nadar me faz bem. Fico na indecisão por um tempo, indecisão imbecil, o que mais gosto é nadar. Sair. Começar. O scripte é o mesmo. A água está fria, as primeiras braçadas são desagradavelmente agradáveis. Toda santa vez que caio numa piscina me perguto:
Por que toda esta frescura para começar algo de bom?
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