domingo, 22 de março de 2026

Portal de governo apagado. É um crime!


Esta pesquisa de Frankito traz um dado apavorante: "Depois de mais buscas em outros sites, descobri que a fonte era o Portal do Ministério do Desenvolvimento Agrário, em 2007. Mas este portal não existe mais, foi apagado. E isto é normal porque, quando os governos se sucedem, eles alteram a estrutura dos ministérios e a estrutura dos próprios sites também (lembrando que o MDA chegou a ser extinto em 2016)". Sim, sei que dados e documentos públicos que estejam em versão digital somem, e sei porque tive contato de trabalho com a coisa pública. Aliás, não só os digitais, dependendo some tudo. Não me lembrava mais. Perda de dados e documentos é de extrema gravidade, um prejuízo imensurável para a vida de qualquer cidadão. Do sumiço para a pior das bandidagens não precisa sequer um passo.

Trabalhei em dois projetos cicloviários que simplesmente desapareceram: Ciclorrede Butantã e Projeto Cicloviario de Guarulhos. Sumiram, ninguém viu, ninguém ouviu, ninguém sabe. 
O do Butantã, com 115 km de vias cuidadosamente mapeadas e estudadas, era de um detalhamento que até hoje é raro, se é que foi repetido em algum outro projeto.
O de Guarulhos, pago pela secretaria de transportes da cidade, em nível funcional, com detalhamento quase de nível básico, propunha uma política de implementação, função social, de mobilidade, e desenvolvimento futuro não comuns aos projetos cicloviários.
Sumiram, desapareceram...

Em outros trabalhos foram pedidos documentos necessários que nunca foram encontrados, em papel ou digital. No digital houve ainda casos que o programa impregado simplesmente não existia mais, portanto tudo se perdera. Mais uma coisa: onde está, com quem, em qual departamento...
Com a digitalização deveria ser mais fácil preservá-los, mas pelo que diz Frankito, mas fica muito mais fácil vapt vupt... e sumiu. E com isto ideias, propostas, projetos, ou provas. De qualquer forma o prejuízo para todos nós é imensurável.

Lembro a todos que uma das bases de construção dos países desenvolvidos e ricos foi e segue sendo justamente a preservação da memória. 
E reafirmo o que todos nós estamos cansados de ouvir e saber: 
BRASIL, UM PAÍS SEM MEMÓRIA 
Não pode dar certo.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Reitores, universidades e livros


Desculpem, aproveitando. No meio desta reforma ou atualização legal nas universidades, urge rever a lei de direitos autorais referente a literatura específica relacionada a cultura e ciências. Obras importantes de eminentes professores, pesquisadores e pensadores simplesmente desaparecem porque não se consegue reeditá-los.

Cito dois casos que conheço bem, o do Professor Fernando de Azevedo, a quem se faz desnecessária maiores apresentações, e de Murillo de Azevedo Marx, titular de História do Urbanismo da FAU USP.

Sei que são inúmeros os casos de obras importantíssimas que desapareceram em nome de um direito que atende única e exclusivamente à família e herdeiros, mas que deveriam ser prioridade do interesse nacional, a bem da verdade não só o nacional.

Apesar do grande interesse na reedição de livros de Fernando de Azevedo, foi impossível encontrar todos seus descendentes.

No caso de Murillo de Azevedo Marx, os direitos autorais são da própria universidade, que por sua vez não tem dinheiro para a reedição.

Não posso deixar de apontar uma outra questão. Sei de trabalhos importantes, até por serem únicos em suas áreas, que foram 'cancelados', usando um termo atual, porque seus autores não tinham plena simpatia dentro da academia.

Finalmente, pelo que sei a condição das bibliotecas universitárias está muito longe de ser a ideal. Preservar livros e documentos custa e muito, mas é investimento de retorno mais que garantido. O mesmo para museus, acervos....



Urge uma política solida e construtiva de Estado para a cultura e ciência. Sem cultura e ciência literalmente não há futuro, ou há, o da selvageria, da desordem, descontrole social e da violência, como consequência uma baixa qualidade de vida para toda a população, mesmo a mais abastada.

Um dos símbolos deste país de hoje é o Museu Nacional em chamas. Preciso dizer mais?

quarta-feira, 18 de março de 2026

Seguir em frente com o que realmente importa

Ainda não sei ao certo por que aconteceu, mas partiu a corrente de um participante de passeio logo nos primeiros metros. Como a bicicleta sempre está impecavelmente brilhante e tem gente que tem mania de fazer revisões desnecessárias para ter a bicicleta nos trinques, eu acredito que mais uma vez a bicicleta foi levada para uma revisão desnecessária, provavelmente revisão completa, onde o mecânico cortou a corrente para fazer uma limpeza mais profunda, e ao montar de volta não fechou o elo como deveria. A outra hipótese, que minha raiva momentânea descarta, é que a corrente estava montada com um elo de ligação, e que por uma tremenda falta de sorte ao tirar a bicicleta do carro o elo de ligação tenha aberto. Acontece. 
Bom, agora sei que não foi revisão.  De qualquer forma, vamos ficar com a primeira hipótese, que já vi acontecer outras vezes,  nãoa corrente,  mas voltar desregulada ou com algo solto. Uma destas vezes aconteceu na mão do então considerado o melhor mecânico de bicicletas do Brasil. Então... acontece.

"Eu fabrico bicicletas para as pessoas usarem, não para deixá-las bonitinhas" - tradução minha sobre a resposta de Mike Sinyard, fundador e proprietário da Specialized Bicycle Components, para Luiz Dranger, representante da marca aqui. Já publiquei esta resposta incisiva mais de uma vez, e provavelmente publicarei mais vezes, porque nela há mais verdades que simplesmente a forma de o que envolve o mundo da bicicleta.

Voltando a corrente quebrada. Desde 1986, quando a qualidade das peças de bicicleta mudaram e ganharam a mesma qualidade aplicada na indústria automobística, mandar a bicicleta para o mecânico se tornou praticamente desnecessário. Ok, as bicicletas atuais são menos duráveis que as da década de 90, mas mesmo assim são feitas para não apresentar problemas por anos, até porque atendem ao mercado americano e europeu.

O que vivemos no Brasil em relação ao entendimento do que deve ser qualidade é uma loucura generalizada, um desvario sem tamanho, em tudo. Exagero meu? Leia os jornais. Nós, todos, estamos pensando errado, e não é só na política, mas no geral. O olhar para a bicicleta não escapa deste pensar errado. Poderia fazer uma análise mais detalhada, profunda, mas vamos ficar só no sentido mais profundo do "bicicleta é feita para ser usada".

Por diversas razões posso dizer que conheço bem a Holanda, ou melhor, os Paises Baixos, nome correto do país. Acho que ninguém tem dúvida que eles são a referência do que e para que serve uma bicicleta. A primeira coisa que chama a atenção de um estrangeiro que goste de bicicleta e tenha recém chegado a Amsterdam, por exemplo, é que a maioria das bicicletas anda, roda, funciona, e olhando com cuidado fica uma certa dúvida: "Como assim? Holandeses pedalam isto?". Enquanto a bicicleta está funcionando eles seguem em frente com elas. Bicicleta é um utilitário, ponto final. Pelo menos a bicicleta do dia a dia.

Vamos ao holandes que tem uma segunda bicicleta, a bicicleta de fim de semana, o que bem comum. Geralmente está numa condição muito melhor que a bicicleta do dia a dia, a que se amarra em qualquer lugar e tem grande chance de ser roubada. Bicicleta de dim de semana bem cuidada, funcionando direito, é uma coisa, mas neurorica e constantemente revisada é outra, até porque encontrar bicicletarias não é uma coisa tão fácil, é um serviço mais perfeccionista sai bem caro, bem caro mesmo.

Outro ponto a se levar em consideração é a consciência ambiental dos holandeses. Duvido que entre os amigos e conhecidos pegue bem a conversa que a bicicleta vive fazendo revisões para ficar nos trinques, brilhante, chamativa. Não é do feitio deles. A regra é "tem que funcionar bem", ou, ser usável para o fim desejado. É quase uma lei para tudo, da bicicleta à conservação da casa. Não sei exatamente como eles encaram os exageros, mas por tudo que vi e vivenciei em minhas várias vezes que estive lá, não deve cair bem.

Numa a primeira das muitas estadias tive lá, pegamos um carro e fomos visitar uma amiga na Alemanha. Nós Paises Baixos o asfalto e a sinalização eram impecáveis. Já o matinho em volta estava aparado, mas era matinho. O foco todo voltado para a segurança no trânsito, não para quaisquer supérfluos. Cruzamos a fronteira e na Alemanha o asfalto, a sinalização eram muito bons, ponto, o paisagismo lindo. Uns dias depois fomos para a Suíça, tudo irritantemente impecável, organizado, funcional, eu adoro,  mas concordo que é um pouco duro, sem molejo. 

De uns tempos para cá tenho olhado minhas coisas de uma maneira diferente. Me dei conta da barbaridade de coisas inúteis que tenho, ou acumulei, sei lá. Demorou. O dito por Mike Sinyard, em 1991, sobre o uso que se deve dar a um bem sempre fez toc toc na cabeça. A vivência com os holandeses no trabalho e como turista me mostrou a inteligência do só o necessário. O dia que entrei numa locadora de bicicletas em Amsterdam e dei com um grande cartaz gritando "Nós pedalamos. Americanos usam capacete" só confirmei que em tudo na vida é necessário aprender a olhar para o que realmente importa. O resto é resto. 

Pesquisa Radio Eldorado sobre o trânsito de São Paulo

Rádio Eldorado FM está pedindo comentários sobre nossa vida no trânsito de São Paulo, que vem piorando de maneira assustadora. 
Mandei para eles um pouco do que conheço desta história de como chegamos nesta situação horrorosa. 

Em 1965 Arturo José Condomi Alcorta levou para o então diretor de trânsito, Coronel Fontenelle, a mudança das parábolas dos semáforos, o que tornou visível as luzes vermelha, laranja e verde. Projeto dele Arturo José e de seu primo José Luiz Whitaker Ribeiro (fundador da Engesa).

Logo após Arturo José apresentou um projeto de sincronização sequêncial dos semáforos, como usado em Buenos Aires e em diversas capitais do mundo. Foi recusado.

A história de um olhar para o trânsito errada vem de longe e foi alertada por diversos estudiosos e especialistas sobre cidades.

Na década de 70 houve uma gritaria por parte de eminentes urbanistas contra a construção do Minhocão e de outras obras viárias pontuais que estavam fadadas a criarem problemas futuros. Criaram, a prova está ai.  

É o caso do Boulevard Paulista, obra primordial para o trânsito não só local, morreu nos seus primeiros metros. Como estaria a Av. Paulista se seu trânsito tivesse dois níveis, um deles privilegiando pedestres? 

Desde 1898 as grandes cidades se reúnem para trocar experiências que melhorem a qualidade de vida dos cidadãos. Desde que me conheço por gente ouço "somos diferentes, sabemos o que estamos fazendo".

Nós anos 80 Mario Covas Prefeito deu início a um projeto de transporte coletivo baseado na experiência de Curitiba. Seu sucessor, o personalista Jânio, deformou a ideia inicial.

Erundina declarou que um de seus maiores erros foi acabar com o projeto Boulevard JK. Ou seja, trânsito expresso no subsolo, e local privilegiando pedestres e ligação entre bairros.  
 
Visitei a Central CET Bela Cintra em 2005 e pasmado constatei quase a metade dos monitores apagados, outros sem nitidez, e o uso de computadores ainda de tela verde.

Na administração Haddad se tentou fazer uma gambiarra no sistema dos semáforos, mesmo com inúmeros alertas que não funcionaria. Não funcionou. 

Os novos semáforos, outra solução mais em conta, como manda a lei de licitação, já estão apagando.

Faz muito que parte do corpo técnico da própria CET pede a mudança completa de todo sistema semafórico e outros investimentos urgentes para o trânsito de MSP.

A pergunta que tem uma resposta consistente se deve fazer é para a população: vocês se interessam mesmo, de verdade, pela melhora no trânsito? Sinceramente, eu duvido. Que realmente se interessa vai atrás.


Muda administração, mudam as prioridades. Não há continuidade. Não há projeto. E vale afirmar, a população entalada no trânsito não se manisfesta.

Analise seria e comentários....

A análise da curadora Téo Foresti Girardi mais que merece u a leitura cuidadosa, deve ser tomada como um norte pelo qual devemos nos movimentar para alcançar. 
Como pensar plano, como abranger em círculos o que realmente é produtivo? Como aproveitar uma oportunidade histórica?  

Como acontece com frequência, comentários a textos, análises, proposições, são feitos com soberba. Soberba temos ou somos todos, mas qual é o limite entre o construtivo e o destrutivo que devemos aceitar numa soberba? Como filtrar o conteúdo da soberba mais soberba, do espelho, espelho meu, alguém mais inteligente que eu? Eu diria treinamento, o que nos falta. Me falta.

Liberdade de expressão? Apoio, total, mas uma coisa é liberdade de expressão, de ser, e outra é usar ferramentas expressivas, batidas, que já cansaram, para misturar coisas, confundir, sabotar pelo sabotar, pelo prazer de se posicionar socialmente nas mídias enaltecendo sua própria gloriosa soberba. 

Tenho lutado muito para não me empastelar com minhas próprias soberbas estupidas. Olho para trás e vejo quanto foram improdutivas, para mim e para a construção coletiva, que bem lá no fim das contas é o que realmente conta. Até para mim mesmo.

Se lerem os comentários desta análise e acharem que errei, por favor, peço que digam. 
Não posso copiar e publicar comentários dos outros aqui. 
Adoraria debater. No tete a tete sou presa fácil. Escrevendo consigo sobreviver. 

co. U

Parabéns pelo texto, parabéns pela inteligência, parabéns pela iniciativa. E sinto muito pelo baixo nível de alguns comentários, aqui e em outras. Já estive no meio da coisa pública e tenho boa noção do que é. Aliás, não é necessário viver um incêndio para ter uma noção do que é. Alguns comentários me fazem lembrar inúmeras passagens passadas onde quem tinha respostas foi ridicularizado por sentados numa cadeira. E cá estamos nós, neste Brasil...

Passamos da hora de quem quer um país de fato começar a ouvir quem realmente interessa, quem realmente tem o que dizer, quem tem ideias positivas, funcionais, por mais difíceis que sejam de implementar.

Lembro de um funcionário público, Renato Brandão, que um dia apareceu com uma pequena lata cilíndrica e disse que aquilo era o futuro, a mesma que hoje enche os supermercados. Foi pesadamente ridicularizado. O mesmo Renato Brandão foi para sul de Minas e criou uma pequena granja de porcos com padrão europeu, foi chamado de louco. E assim foi. Pelo menos os grandes fazendeiros do café, reunidos num canto discreto de uma pequena padaria, quando viram Renato entrar na padaria o chamaram para ouvir sua opinião. O resto é história, o cafezinho nosso de cada dia e nossas exportações quero digam.

terça-feira, 10 de março de 2026

Semáforos que apagam. Economia estúpida.

Sobre semáforos quebrados, quando a imprensa vai fazer uma matéria profunda sobre a qualidade da semaforizacão que temos em São Paulo. A troca pelos novos, os de borda amarela, falham tanto quanto os velhos. Os velhos, os ainda da geração gambiarra feita pela administração Haddad, tentava de solução barata que tinha tudo para não funcionar, apagam na primeira chuva.

Aliás, vergonhoso é uma cidade que responde a 17% do PIB do país não resolva um problema como este que afeta brutalmente a fluidez, portanto a economia. Tempo é dinheiro, nossos brutais congestionamentos são burrice extrema.

Finalizando: ou se faz um projeto para a troca completa do sistema, do semáforo ao softwares, passando por cabeamento e transmissão de dados às telas de controle, ou continuaremos nesta palhaçada.

Resta saber quem ganha com está baderna.
Quem perde sabemos bem, todos nós. Só não entendo por que não há um levante popular contra nosso caos no trânsito. Aliás, entendo. Nós acostumamos com o ruim. Pura e deprimente verdade.

Velhice é uma merda!

"O cú do cupido está entupido" *.
Entupiu. Que merda! Não experimente. 

Fui para Penedo, fugir um pouco da loucura paulistana e aproveitar para subir pedalando para Visconde de Mauá, 1.300 metros de altimetria e 960 metros de subida em 10 km no meio de um verde Mata Atlântica maravilhoso. 

"Cada subida é uma subida" dizem os profissionais, ciclistas. Pura sabedoria. Me lembro das outras subidas longas que fiz e sei que esta foi a mais difícil. Cheguei lá em cima no limite, e não teria chegado caso não tivesse uma técnica apurada. O limite desta vez foi uma área tênue muito próxima de dar ruim, uma sensação estranha de poder, muito estranha, que traz consigo um gostinho de fundo de perigosa irresponsabilidade. Quem já competiu sabe bem que cruzar a linha de chegada no limite do limite é a glória. Se bobear dá ruim, e pode ser bem ruim mesmo.

Larguei muito errado numa prova de mountain bike. Quando dei conta do tamanho da besteira sai atrás do prejuízo. Fiz a subida sem preocupação com o cardíaco e continuei a besteira na descida. Resultado, pedalei uns 50 metros desmaiado, sim desmaiado, com a cabeça gritando "acorda idiota, você está numa competição, acorda!". Quando voltou a consciência, caiu a ficha do absurdo e parei. Contei para meu médico que explicou que eu tinha chegado ao limite máximo do meu coração, o que não deveria repetir. 
Num treino de natação decidi medir forças com um amigo, triatleta profissional. Simples: nadei uns 400 metros lutando para não desmaiar. De novo, coloquei meu coração num limite que não deveria.

A brincadeira para Visconde de Mauá são 960 metros de aclive até o topo da montanha e mais 420 de declive até a vila. Subi consciente, cheguei bem cansado, bem cansado. Quando começou a descida aí caiu a ficha em qual limite meu corpo estava. Na vila acabaram as forças. Demorei um bom tempo para normalizar o cardiorrespiratorio, bem mais que o normal.

Estabilizei, almocei, peguei carona de volta, e terminado o dia estava muito mais inteiro do que imaginava e minha experiência diz que deveria estar. 
A noite fui para a cama sem cãibras, o que depois de tudo não é normal. Enfim, foi ótimo. Dormi bem.

Dia seguinte "o cu do cupido está entupido". Não quero relembrar. Posso dizer que no meio do horror, e toca horror, meu coração chegou muito próximo do limite, mas um limite aterrorizante onde você vira passageiro do estado clínico. Não há forma de conseguir baixar o cardiorrespiratorio, pelo menos não tenho prática, e não pretendo ter.
Resolvido o problema constrangedor, leve feito uma pena, comecei a sentir um leve estiramento no adutor. Só pode ser piada, depois de sair bem da heroica subida da serra, vou sentir a perna no trono?


Sai de São Paulo com a ideia de ver como estava subindo para Visconde de Mauá, descansar uns dias, partir para o Rio e subir o Cristo Redentor. Micou de cara. Uma tromba d'água encheu Penedo logo na  minha chegada. Resultado numa roupa empapada e bunda suja de terra. As notícias sobre tempestades e enchentes fizeram o Cristo Redentor ficar para um dia quem sabe. 
Aliás, nunca fiz uma viagem com tantas intercorrências, no sentido médico e figurativo, quanto esta. Até uma garrafa de mel partiu-se ao meio quase do nada. Vivendo e aprendendo.


* José A B C, grande amigo, disparou no meio de uma aula de religião "o cu do cupido está entupido". O padre, que era uma fera, ouviu, virou-se e seguiu-se uma explosão de gargalhadas da gurizada que demorou para ser controlada. Zé quase foi expulso do colégio, até porque a frase virou hino de guerra nas aulas chatérrimas de religião.


domingo, 8 de março de 2026

"Não adianta falar. Eles não entendem"

Ontem pedi informações sobre dados detalhados de trânsito para uma pessoa que está na coisa pública e tem possibilidade de consegui-los na CET. Em específico, curva de carga de trânsito, horários e locais, para ver novas possibilidades de caminhos alternativos para ciclistas e dar ferramentas de organização para os passeios noturnos. O número de passeios noturnos diminuiu porque dependendo do local e horário de saída o pessoal simplesmente não consegue pedalar. A cada dia aumenta a saturação de carros das ruas e mesmo ciclistas não tem mais espaço para seguir em frente.  Foi um baile até ela entender sobre o que eu estava falando, e a hora que entendeu sua expressão mudou de "o que este cara está falando?" para uma expressão com um jeitinho um tanto "este cara é louco".
E uns dias depois ampliei o pedido para curva de carga de trânsito, horários e locais, valor agregado por veículo, e no rosto dela a expressão passou para um "não acredito, quem interna este fdp!". Mesmo assim recebi como resposta, imediata, tiro certo, que é muito provável que a CET não tem estes dados por falta de pessoal. Deprimente.

Dois depois deste pedido, uma aula de expressão facial, encontrei uma das peças mais atuantes dentro do poder público e fiz o mesmo pedido, contando que já havia pedido o mesmo para outra pessoa, que ela conhece. Ela se interessou, disse que vai ver o que consegue, e sobre a cara de espanto do outro com minha demanda ela deu o tiro: "Não adianta, eles não entendem". Eles quem? "Todos". Ah, ok.

Eu, Renata, Sérgio, e outros tantos pre históricos da bicicleta, tivemos num passado distante inúmeras vezes a mesma experiência que tive desta vez, uma cara de incompreensão seguida de um risinho inconfundível que diz com todas as letras "este cara é completamente maluco, é um idiota". Era e continua sendo uma reação socialmente quase pré estabelecida para tudo que é ou parece ser, ou se quer incompreensível. Dependendo sobre o que se entrava a fundo, antigamente o pessoal ouvia com atenção e fazia de conta que estava interessado ou queria entender. No caso da bicicleta normalmente o martelo estava batido no discurso corrente "bicicleta é coisa de pobre", então era ponto pacífico "este cara (o que está falando sobre bicicletas) é um idiota". 
Para muitos assuntos a reação era mesma, principalmente para aqueles onde havia esta distinção 'inteligentíssima', direi eu, entre pobres e ricos.

Tudo muda. Com tempo a bicicleta passou de assunto 'desinteressante e até desagradável' para um tema que hoje levanta a orelha geral. 
Faz um bom tempo, numa reunião de família, um primo, que sempre fizera bullying sobre meu gosto pela bicicleta, pediu orientação sobre que bicicleta comprar. Infelizmente eu caí na gargalhada e tirei um sarro sem tamanho e em voz um tanto alta que os mais próximos ouviram. Ou, rebati a bola com força e mach point para mim, ele e todos que haviam ridicularizado a bicicleta por tanto tempo de certa forma engoliram o próprio "maluco e idiota" estampado durante anos em suas caras e falas.

Falo aqui sobre bicicletas, mas este desinteresse por muitos assuntos continua igual, com as mesmas reações.

A piãozada se empoderou. Passaram de meros "ignorantes, analfabetos" para os donos da situação. Não que no geral tenham mudado, aliás, mudaram, para pior. Num passado distante eram cuidadosos, respeitosos, a maioria fazia um serviço bem feito, com orgulho do esmero, e terminavam o que estavam fazendo. Hoje, além da "rebiboca da parafuseta" que quem contrata tem que engolir, ou não resolvem o problema, quando resolvem.

"Não adianta falar, eles não entendem", ouvi sobre esta baderna bandalheira asquerosa do Banco Master.

Quem não entende? Todos nós, sem exceção.
Afinal, quem é o idiota nestas histórias?
Não responda que fico deprimido.

Com jeito de comemoração, ouvi "A empresa é ótima, não dá para acreditar. Entraram, fizeram o serviço rápido (a troca de uma coluna de esgoto em dois apartamentos), saíram, e quando fui conferir se estava tudo certo não dava para ver onde eles tinham realizado o trabalho". Deveria ser regra, mas não é. Geralmente entram, quebram tudo, transformam o ambiente em cenário de guerra, fecham rapidinho do jeito que for e saem correndo deixando para trás "tá tudo limpo" tipo cracolândia. 

Eu adoro a expressão "rebiboca da parafuseta", define bem o que nos tornamos, contratantes e contratados. Reboca da parafuseta é um retratos fiéis deste país. Estou errado? Vide nosso índice de produtividade e qualidade, e porque não dizer, no roubo e na corrupção. Fato é que só nós, o povo, estamos nesta contramão.

Publicado no Estadão em artigo opinião de Demi Getschko sobre diferenças de respostas do IA:
É da expectativa humana que, a toda pergunta, se houver uma resposta supostamente correta, ela tenderá a ser única. Pode ser difícil cavar essa resposta no universo do conhecimento, mas, escondida em algum canto, ela seria fixa.



quarta-feira, 4 de março de 2026

terça-feira, 3 de março de 2026

Pedágio urbano para frear o uso do carro

NYC não foi a primeira. Muito antes várias cidades européias usaram instrumentos para frear o uso indiscriminado do automóvel nos centros urbanos. Não só pedágio.

Como europeu passou por duas guerras brutais, a forma de pensar é outra, pragmática. Eles até acreditam em milagre, mas meio da boca para fora. Na hora de resolver as coisas, pensam de maneira prática e realista, o que definitivamente não é nosso caso.

Até dá para impor um pedagio urbano em São Paulo, eu até sou a favor, mas há uma série de senãos aí, começando pela questão social, que aí sim é uma questão a ser muito bem pensada. Em NYC, ou em qualquer cidade européia, não há o abismo social que temos por aqui, o que é um fator a se pensar bem. Pedágio urbano gera mudanças significativas no fluxo de dinheiro. Quanto maior a diferença social, maior o impacto na macro economia urbana. 

Temos que resolver o caos que estamos vivendo e que só piora. Para isto precisamos de um planejamento que olhe para a cidade e seu cidadãos, sem imediatismos ou delírios. É mudança de médio longo prazo, mesmo que necessitemos de uma ação dura para sanar gravíssimos problemas ontem.

NYC começou um plano de recuperação e reestruturação da cidade na década de 80, quando disseram um basta a uma violência incontrolável de 82 assassinatos por 100 mil. O primeiro passo foi colocar ordem na questão social, diminuindo a violência brutal, através do Tolerância Zero. O segundo passo foi iniciar o que é conhecido como Cidade Sustentável, que teve Jeanette Sadik Khan e sua reforma da Broadway av inaugurada em 2007. Pedágio urbano faz parte do processo, de certa forma está contabilizado e equacionado pela população.

Em Bogotá, outra cidade que teve uma profunda mudança urbana, o que Penalosa fez só foi possível porque foi preparado o caminho pelo prefeito anterior Antanas Mockus. Ou seja, houve um planejamento de longo prazo que foi seguido.

Não há referência histórica do "faz que dá certo" que tenha realmente dado certo. O melhor exemplo de que o "eu sei, eu faço, vai dar certo..." não funciona está aí e tem nome: Trump. Os próprios americanos estão só començando a pagar o pato.

Outro exemplo deste tipo a não ser seguido chama-se São Paulo, o Município e sua área metropolitana. Desde a década de 70 se faz tudo no "eu sei, vai dar certo..." O resultado está aí. Planejamento? De longo prazo? 

Interessante é que nos dois casos, Bogotá e NYC, o ITDP teve atuação marcante na transformação das mobilidades destas cidades. Na mesma época, o ITDP estive aqui, deixaram muitos ensinamentos, mas parece que não aprendemos nada.

"Nós sabemos, nos somos diferentes, faz isto que vai dar certo..." dito e repetido aqui sem parar parece, repito, parece que não deu certo, só parece. 

Eu definitivamente não quero mais. 

A saber, em plena ditadura, em seus momentos mais duros, houve por parte dos que sabiam o que era uma cidade uma gritaria contra a construção do Minhocão. O sonho destes estudiosos então era a construção de uma cidade em cima de um plano diretor organizado e realista a ser seguido, que tinha como base experiências nacionais e internacionais. Curto, médio e longo prazo. Venceu o "eu sei o que estamos fazendo, nós somos diferentes..." É isto aí, somos diferentes, o resultado está aí, no sonho de boa parte dos brasileiros que todas cidades se transformem em Balneários Camboriu. Que beleza! Igualzinho a Manhattan. 

Que pobreza vergonhosa!

segunda-feira, 2 de março de 2026

A ilusão, a falta de conhecimento, e o fracasso inevitável

Me engana que eu gosto. Ahh, ilusão, doce ilusão. Atender aos mais íntimos desejos de ser leve, livre e solto no planeta de todos os prazeres que se desejar. Como é bom. 


Quer me tirar do sério? Diz "Precisamos pensar na segurança dos ciclistas". 



"Precisamos pensar na segurança dos ciclistas", óbvio que sim, mas isto são palavras, não ações concretas. A pessoa que repetia sem parar este "Precisamos pensar na segurança dos ciclistas" tinha um curriculo mais sujo que puleiro de galinheiro, pior, não fazia ideia do que estava falando porque tinha medo de bicicleta. Mais ainda, era aplaudida por seus iguais num gesto de corporativismo férreo. Um dia caiu a ficha do pessoal e de aplausos partiram para do FDP para baixo, tudo que se pode ouvir. 
 
"Precisamos pensar na segurança dos ciclistas" dito ao peido (expressão típica de porteños que vem bem a calhar) é o caminho mais curto para reduzir a segurança de todos, ciclistas, pedestres, até motoristas.

"Precisamos pensar na segurança dos motociclistas"?

Venho há muito falando sobre a necessidade urgente de nós, brasileiros, termos dados corretos sobre o que acontece para só então estabelecer um plano de ação com prioridades. Alguém se interessa? Bom, creio que não, como apontam inúmeros artigos e textos, de inúmeros especialistas. Não sou eu que digo, um joão ninguém, mas o pessoal reconhecido e respeitado como conhecedores em suas áreas, todas, as mais diversas, não só segurança no trânsito. Exemplo: Marcos Lisboa e outros de primeira linha denunciando que o BC, Banco Central, falhou feio em ter informações para controlar a inacreditável bagunça que há muito vem ocorrendo com o Banco Master e amiginhos deste, uma brincadeirinha de até aqui R$ 60 bi, só isto, até aqui! Ou da inoperância das agências reguladoras, todas. Ou a baderna de dados sobre a criminalidade. Ou dos órgãos coletores de dados estarem em boa parte entregues a partidários. Etc...

Não há estudioso deste país que não afirme com todas as letras que "brasileiro não gosta de dados, estatísticas, de precisão".

O artigo sobre os resultados negativos das faixas azuis para motociclistas vai por aí, a falta de interesse em dados e informações precisos para criar soluções. (Eu quero melhorias imediatas nas perícias e corpo de legistas). Dados existem, excesso de velocidade mata, motoboy com pista livre acelera, cruza sinal vermelho, não respeita nada, quer e precisa entregar o mais mais rápido possível, a pizza não pode chegar fria... Mas com que qualidade de detalhes e como são utilizados?

Estou exausto de repetir o mesmo. Coisa chata!

Segurança, a de verdade, a que traz resultados positivos, não se faz com achismos, mas com dados precisos, o que brasileiro não é muito afeito, todos, sem exceção. Não sou eu quem afirma, um mero cidadão leitor curioso, mas quem conhece.
A pior coisa para a segurança são as soluções mágicas, o que incluí boas ações realizadas pela metade, sem um olhar horizontal, periférico e tangencial, micro e macro, de curto, médio e longo prazo, o que se faz aos montes e sempre, o que é regra. "Eu vou inaugurar em..." Bingo! Sorrisos.
Somos o país da solução mágica, do tiro certo no pé. Mortes aos montes são uma consequência natural.

Mais uma vez repito, que chato!

Quando há uma situação aguda, a reversão mais eficiente desta é atravéz do estabelecimento de ações prioritárias, que nem sempre são do agrado de gregos e troianos, muito menos populistas. E menos ainda ideológicos. Aliás, neste país estabelecer prioridades de verdade levanta uma gritaria ensurdecedora de tudo quanto é lado.

Segurança é uma ciência, e como tal deve ser tratada. Viajou na maionese, danou se.

Faixa azul é uma boa solução, está provado. A crítica que se faz está apoiada no comportamento de meia duzia que fazem besteiras, continuam sofrendo acidentes e morrendo. Não era previsível que com pista livre o problema sairia da colisão lateral para os cruzamentos? Vai se melar mais uma boa ideia porque tem idiota que faz o que quer e bem entende em sua moto? "Eu tenho direito..."
  • quando se entra num corredor qualquer, o foco de atenção fica no final deste
  • na aproximação da saida de um corredor, como é o caso dos cruzamentos, para onde se está olhando?
  • no final do corredor quanto se tem que girar a cabeça para olhar primeiro para um lado e depois para o outro. Quanto maior o giro de cabeça, maior o tempo para visualizar o todo, quanto maior este tempo menor o tempo de reação e de segurança.
  • quando alguém que vem pelo corredor tiver uma SUV ou qualquer outro veículo grande formando paredes laterais na aproximação da esquina, qual o tempo de visualização e reação que o motociclista tem para o que vem em diagonal?
  • caso o corredor cruze uma rua, no momento do cruzamento o motociclista tem muito menos rotas de fuga para evitar uma colisão. O caminho natural é seguir pelo corredor.
  • como é realizada a fiscalização da velocidade dos motociclistas? 
  • como sempre foi a fiscalização de velocidade? Como é a lei relativa?
  • como parar um motociclista infrator que vem num corredor estreito no meio de uma avenida? Como deter um motociclista fechado num corredor que tem atrás vários outros motociclistas?
  • como a lei trata este problema?
  • etc...
O advogado do diabo não serve para destruir uma ideia, mas para colocar questões que tem que ser analisadas para se chegar a um bom resultado. Não sou contra a faixa azul, muito pelo contrário. Aproveitando, e repetindo, não sou contra ciclovias. Sou contra não ir atrás de qualidade, de errar o mínimo possível e de efeitos colaterais. 
Quer reduzir a acidentalidade e as ocorrências? Estabeleça prioridades reais e faça cumpri-las.    

A prioridade deste país tem que ser dar um basta a todo e qualquer estúpido. Feito isto entraremos no caminho para o país do futuro de verdade, não esta vergonha que vivemos. A nossa prioridade, a dos seres normais, deve ser estabelecer uma linha da qual não passarão, ponto final. Os que usam a faixa azul, assim como os políticos, os executivos, os judiciários, os vizinhos, conhecidos, reliogiosos,, as empresas, os contraventores..., todos sem exceção. Estou escrevendo besteira? 

O outro, principalmente o desconhecido, morrer de forma estúpida importa para o brasileiro em geral? Responda você.