sexta-feira, 31 de maio de 2013

Londres

Fiquei em Londres 10 dias, na transição entre o inverno e primavera, com um clima ainda frio para um brasileiro, mas nada de assustar. Mesmo nos dias mais frios, com temperatura próxima a zero e chuva, os ciclistas estavam lá circulando para todos lados. Não é uma multidão de ciclistas como em Amsterdã ou Ubatuba, mas estão lá todos bem agasalhados, a maioria em cores fortes, principalmente amarelo fluorescente. Como em todas as capitais o caldo de ciclistas engrossa para valer na hora do rush. Ai é assustador como eles socam os pedais, principalmente nas ciclovias do rio Tâmisa. Mesmo a velhinha de saia e chale cobrindo a cabeça provavelmente consegue acompanhar uma etapa do Tour de France. Passam feito uns loucos, boa parte pedalando bicicletas de estrada. Como pedestre é preciso tomar muito cuidado porque a aproximação é de motoboy atrasado.

No Tâmisa curiosamente há dois tipos de ciclovias: duas expressas pintadas de azul claro que correm nos bordes da avenida, e uma sobre a calçada da margem do rio pintada de verde, provavelmente criada para pais com crianças ou velhinhos como eu. Não pedalei na expressa, mas provavelmente me sentiria tão desconfortável quanto me senti em Munique. Não é “bike friendly”.

Cheguei a pedalar nas bicicletas comunitárias do Barclays Cycle Hire, que é muitíssimo mais fácil de usar que o Velib de Paris. Nunca consegui pegar uma Velib com o cartão de crédito, o que foi fácil em Londres. A primeira estação não aceitou o cartão de crédito, mas na próxima, uns metros à frente, foi colocar o cartão, receber o tíquete com o código de retirada e sair pedalando. Em todas outras estações o cartão de crédito funcionou bem.

A bicicleta é um tanque de guerra com três marchas. Depois de quebrada a inércia roda bem muito por conta dos pneus de alta pressão duros feio pau. A sensação é que é mais forte e rígida que a Velib de Paris, com certeza mais pesada que a Bicing de Barcelona, e melhor que a mole, muito confortável, estranha de pedalar, aparentemente delicada bicicleta de Munique. Entre todas prefiro a Samba, que usamos no Rio de Janeiro, São Paulo, e mais outras cidades, pelo projeto simples, bem ‘bicicleta’ e apesar dos ajustes da manutenção que não me agradam.

Pedalar nas ruas de Londres fora da hora de pico é muito fácil. Mas não pensem que todo londrino continua parando para pedestre, que os motoristas não dão umas encoxadas nos ciclistas, que é segurança total. Pedalar em Londres é mais tranquilo do que as outras capitais até pela simples razão que as ruas são muito menos movimentadas, portanto menos tensas. A diferença para Manhattan, Paris ou São Paulo é grande, mas a técnica de sobrevivência é exatamente a mesma. Não se pode deixar de elogiar os ingleses, mais contidos e educados.

Londres tem poucas ciclovias. Usam muita pintura de solo e sinalização vertical. Não é difícil encontrar veículos invadindo o espaço definido para a bicicleta, mais por falta de espaço e situações típicas da fluidez de trânsito do que por desrespeito puro e simples ao ciclista. Em muitas rotas de passagem de ciclistas não há uma sinalização mais ostensiva. A maioria das vias não tem espaço suficiente para dar um espaço especial para a bicicleta e todos se acomodam como podem. Viajei no segundo andar de um double-decker bus (ônibus de dois andares) e o motorista foi lenta e silenciosamente empurrando um ciclista velhinho de tão perto que em certos momentos não o conseguia ver pelo para-brisa. Mas em nenhum momento tocou a buzina ou deu aquelas aceleradas ameaçadoras. Não ouvi sequer uma discussão ou troca de insultos, ou devido à educação, ou devido às janelas fechadas pelo frio intenso. Ciclista alucinando na calçada é muito raro, mas vi alguns ciclistas pouco preocupados com o pedestre.


Adorável é ver locais próprios para cavalgar dentro do Hyde Park, Green Park e na ‘avenida’The Mall, que sai de frente para o Palácio de Buckingham. Nos cruzamentos entre os parques há semaforização para carros, pedestres, ciclistas e montarias. Outro detalhe adorável é a Exhibition Road que já está no futuro: não tem qualquer elemento, como meio fio, que separe automóveis, pedestres e ciclistas. Uma espécie de calçadão para todos. A ideia surgiu na Holanda e está se espalhando pela Inglaterra onde várias cidades simplesmente tiraram tudo que se entende como elemento ou sinalização para segurança do trânsito. É um espaço limpo onde todos circulam juntos. O resultado? Aumentou a segurança.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

A segurança dos ciclistas segundo O Estadão

para:
Fórum dos Leitores

O Estado de São Paulo

Segurança dos ciclistas

Gostaria de fazer alguns comentários sobre o texto “A segurança dos ciclistas” publicada hoje, 24 de Maio de 2013, no Opinião, pg. 3, deste jornal. Os números de mortos no trânsito de São Paulo são profundamente vergonhosos para as autoridades de trânsito, em especial para a CET, o que a levou a agir, ação tardia e tímida, muito tímida em vista do problema. São Paulo teve algo em torno de 12 mil mortos uma década. Os números vêm caindo, mas falta um ano luz para serem dignos de uma cidade civilizada. Pedestres, pessoas com deficiência física e de mobilidade, ciclistas, e outras mobilidades humanas foram praticamente desprezadas até recentemente. A divida com estes, e por que não dizer com todos paulistanos, é imensa, vergonhosa.
O texto cai em dois erros recorrentes no jornalismo brasileiro: falar sobre capacetes e ciclovias como soluções. Capacete, ao contrário do que se insiste em divulgar aqui no Brasil, é até contra produtivo para a segurança do ‘ciclista usuário da bicicleta como modo de transporte’, como está mais que provado por farta documentação científica internacional. Mesmo os mais fanáticos defensores do capacete reconhecem a verdade que em absolutamente todas as localidades onde o capacete foi tornado obrigatório o número de ciclistas nas ruas caiu, o número de ciclistas acidentados aumentou, a bicicleta se tornou mais insegura. Há vários documentos disponíveis na Internet sobre o assunto, alguns irônicos, debochativos e divertidos. Recomendo a leitura da carta da ECF – European Cyclists’ Federation sobre a discussão da obrigatoriedade do capacete na Espanha; de vários papers holandeses e franceses que chutam o pau da barraca do lobby do capacete; ou até mesmo os artigos do NY Times sobre o lançamento do bike share de Nova Iorque e posição do Governo sobre o capacete.  

O mesmo se pode dizer sobre ciclovias. Ciclovias só são seguras numa utopia perigosa. Protegem o ciclista do trânsito motorizado no meio do quarteirão, mas não de outros ciclistas. Não é porque não há interesse em divulgar dados contrários e não se fez jornalismo investigativo que não há acidentes, até graves, em espaços segregados para ciclistas. Muito pelo contrário. Ciclovias, por segregarem os ciclistas aumentam muito o perigo para estes nas esquinas. Assim como aumenta muito o conflito com os pedestres.
São Paulo, como a maioria das cidades grandes, tem um problema grave de falta de espaço e saturação de trânsito. Onde colocar as ciclovias esperadas? Roubar espaço de quem ou do que? Puft! Está criada a ciclovia? A venda da ideia que a segurança do ciclista está atrelada à implantação de espaço segregado só ajuda aos que querem frear ao máximo o crescimento do uso da bicicleta. Protege um status quo retrogrado que está pouco se lixando para a selvageria da cidade. Não foi assim em nenhuma cidade do mundo. Infelizmente e de novo, faltou interesse pelo investigativo. Há uma diferença brutal entre sistema cicloviário e ciclovias. Mas o que adianta explicar? 
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texto original:
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-seguranca-dos-ciclistas-,1035131,0.htm

A segurança dos ciclistas

24 de maio de 2013 | 2h 08
O Estado de S.Paulo

São animadores os resultados do programa lançado há um ano pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) para melhorar a segurança dos ciclistas na capital paulista. Aumentaram as multas aos motoristas que cometem infrações que colocam em risco os ciclistas e diminuiu o número de acidentes de que estes são vítimas. Mas, para garantir a sua convivência harmônica com os veículos automotores, é preciso que daqui para a frente os ciclistas comecem a fazer a sua parte, não só usando equipamentos de segurança, como respeitando como os demais as leis de trânsito. Infelizmente as autoridades de trânsito não deram até agora nenhum sinal de que estão dispostas a cuidar desse outro lado do problema.

Em média, um motorista vem sendo multado a cada hora por desrespeito a um dos três artigos do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) que, segundo a CET, protegem os ciclistas. No total, foram aplicadas 8.844 multas, de maio de 2012 a março deste ano. Uma tarefa nem sempre fácil para os agentes da CET, porque apenas um daqueles artigos - o 220 - diz respeito diretamente ao caso. Estabelece ele que os veículos automotores, quando forem ultrapassar os ciclistas, devem reduzir a velocidade de maneira a garantir a segurança destes. Curiosamente, ele foi o que menos rendeu multa.
Os demais tratam de questões gerais, como o artigo 169, segundo o qual é punido quem dirigir sem atenção ou sem os cuidados indispensáveis à segurança. O artigo 197, por sua vez, considera infração deixar de deslocar, com antecedência, o veículo para a faixa mais à direita, quando for manobrar.
Como não tratam especificamente dos ciclistas, eles tornam subjetiva a apreciação dos agentes. Mesmo assim, a fiscalização da CET conseguiu reduzir bastante o número de vítimas entre os ciclistas. No ano passado, morreram em média 4 ciclistas por mês. Em janeiro e fevereiro deste ano foram registradas duas mortes.
Para avançar ainda mais, duas outras providências são necessárias. Uma - óbvia - é a criação de ciclovias, pois nada protege mais e permite maior velocidade aos ciclistas do que elas. É incompreensível, por isso, que as autoridades municipais tenham assistido - e mesmo estimulado - à expansão desse meio de transporte, sem investir na construção dessas faixas de circulação exclusiva. O que se fez neste caso foi muito pouco e em geral com fins de lazer.
Agora, o prefeito Fernando Haddad promete construir ciclovias ao longo dos 150 quilômetros dos corredores de ônibus que pretende entregar até o fim de seu governo. Para tornar isso possível, será redesenhado o entorno desses corredores, no qual também serão feitos reforma das calçadas e aterramento da fiação. Se a promessa sair do papel, será um passo importante.
Outra medida indispensável é começar a obrigar os ciclistas a respeitar as regras de trânsito, pelas quais a maioria deles parece ter um solene desprezo, mas que são importantes para sua própria segurança. Porque ocupam pouco espaço, não gastam combustível e são ecologicamente corretos, os ciclistas adotam com frequência uma atitude superior. É grande o número dos que agem como se estivessem acima da lei. Andam na contramão, não sinalizam as manobras que vão realizar, não respeitam os sinais e a faixa de pedestres. Também não usam capacete e circulam sem farol, equipamento essencial durante a noite.
Como se tudo isso não bastasse, ainda andam nas calçadas. Nesse caso, fazem com os pedestres, especialmente idosos e crianças, o que acusam os motoristas de fazer com eles - colocam sua segurança em perigo. É preciso encontrar meios legais para punir os maus ciclistas que agem dessa forma.
Com os graves problemas de trânsito, transporte coletivo e meio e ambiente que enfrenta, São Paulo tem muito a ganhar com a difusão do ciclismo, a exemplo do que já fizeram ou estão fazendo grandes cidades dos países desenvolvidos. Mas para isso é indispensável que os ciclistas cumpram suas obrigações.


quinta-feira, 23 de maio de 2013

bueiros perigosos da Operação Urbana Pinheiros

para:
São Paulo Reclama
O Estado de São Paulo


Bueiros da Operação Urbana Pinheiros
Como ciclista peço que se tome providências imediatas para concertar o desnível do bueiro que afundou na esquina da rua Butantã com Fernão Dias, Pinheiros antes que um ciclista quebre a cara ou morra lá. Isto aconteceu uns dias após o termino das obras de reconstrução da rua, ou seja, não mais que uns dois meses atrás. Conversei com um dos responsáveis pela obra e nada. Como cidadão pergunto se é normal o bueiro de águas pluviais expelir água de esgoto? Localizado na rua Paes Leme próximo do SESC Pinheiros, faz parte de obra também recém terminada, onde debaixo do piso, agora em concreto, foi trocado tudo, a saber: tubulação de águas pluviais, esgoto, aterramento de eletricidade, gaz, etc... Como contribuinte pergunto se é aceitável estes “pequenos”, “discretos” defeitos, que na verdade não são exceção, mas quase regra em uma mega obra que não termina por que não param de brotar defeitos, erros, problemas, etc... do que é novinho em folha. Deprimente!








NY Times - bike share in NY - filmes e notícias

Ciclista parisiense olha folheto do Velib uma semana antes do início de sua operação. Havia muita ansiedade e talvez por isto a imprensa não tenha procurado pelos problemas ou divergências.
Seguir o que está acontecendo em NY com a questão da bicicleta sempre é interessante, por que o povo realmente se interessa pela cidade, participa, opina, briga por suas posições. O nova-iorquino se sente cidadão e faz questão de se posicionar para o bem comum e seu próprio.
O que está acontecendo em relação ao NY bike share, bicicletas comunitárias de NY, é mais interessante ainda por que a discussão está indo bem longe, entrando em detalhes, e soltando dados de outras experiências que eu desconhecia ou que não haviam sido divulgadas. Por exemplo: sempre li que o número de acidentes fatais com o Velib foram muito baixas, o que um dos textos diz o contrário. Segundo o texto do NY Times, no começo da operação houveram várias fatalidades que  diminuíram com tempo, quase zerando, o que faz sentido. Mais bicicletas nas ruas, mais visibilidade do ciclista, maior a consciência do trânsito. Somos todos iguais.

Seguir a evolução dos fatos é bem fácil no NY Times.

Apresentação do bike share para a comunidade ciclística:
http://www.nytimes.com/2013/05/07/nyregion/bike-riding-in-city-traffic-take-notes-please.html?emc=eta1&_r=0

Briga contra os estacionamentos das bicicletas comunitárias:
http://www.nytimes.com/2013/05/15/nyregion/complaints-rise-as-bike-share-program-nears.html?nl=nyregion&emc=edit_ur_20130515&_r=1

Construir um processo a partir de outras experiências:
http://www.nytimes.com/2013/05/22/nyregion/a-bike-share-system-for-new-york-built-from-ideas-around-the-world.html?emc=eta1&_r=0

Um comentário de Steve Burks sobre NY:
http://www.dezeen.com/2013/05/23/dezeen-and-mini-world-tour-stephen-burks-new-york/

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Assis Ribeiro / Radial Leste / Faria Lima


Às 5:30h já estávamos na esquina da av. Assis Ribeiro, São Paulo, Zona Leste, com a av. Santos Dumond, Guarulhos, uma dos pontos de passagem de operários ciclistas mais significativos da Grande São Paulo. A ponte é estreita, com três faixas de rodagem, uma única e muito estreita passagem para pedestres, e uma massa de trabalhadores cruzando para lá e cá. Do lado paulistano logo ali, um pouco mais abaixo, a estação CPTM Emerlino Matarazzo na Assis Ribeiro e o seu corredor de ônibus informal que vem dos cafundós sabe lá de onde. Em Guarulhos o trabalho no setor industrial. Ocorrem fortes espasmos de gente a pé e em bicicleta que procuram sobreviver os 550 metros de cruzamento da ponte-viaduto sobre a linha do trem da CPTM, rio Tiete e seu parque ecológico, e a sempre congestionada Rodovia Ayrton Senna.

Para cruzar os ciclistas vão por onde dá espaço. Mão, contramão, pedalando junto aos pedestres; dando de frente com o trânsito, carros, ônibus e principalmente caminhões dos grandes; espremidos entre as grandes rodas e cano de escapamento fumacento e a barreira de concreto, algumas vezes inclinando a bicicleta para o guidão não enroscar na carroceria. Quando o semáforo fecha os mais afoitos espremem-se no meio da faixa dos veículos, já um tanto acostumados e complacentes. Vem uma scooter de frente, que desvia do ciclista na contramão e vai para contramão e dá de frente com um caminhão articulado que entra na ponte. Ninguém fala nada, tudo bem, seguem em frente, a vida continua.
Quando chegam ao meio da ponte, e a descida para Guarulhos, soltam os freios e vêm desembestados para seguir na contramão ou, quando dá, cruzar para a mão ou canteiro central da avenida. Na volta será o mesmo. E assim por diante.

A maioria é de trabalhadores de carteira assinada, provavelmente também pais de família. Aquilo ali é uma loucura completa, mas enfrentar aquela guerra diária já não faz mais perigo. A pressa do dever não permite. Eles querem chegar e só. Tudo o que não se pode é chama-los de loucos ou irresponsáveis. Eles usam a bicicleta na condição que dá; só isto. E o fazem com maestria.
Não posso parar de rir do discurso de criança assustada dos ciclistas almofadinhas que circulam nos Jardins, Centro Expandido e um pouco mais além; São Paulo chique. Passa um filme sobre todas periferias que vi e pedalei. Sinto inveja e admiração por destes ciclistas “pé de chinelo”. Aprendi muito com eles e ainda tenho que aprender. Segurança no trânsito também é estruturado pelo instinto de sobrevivência. Lembro que sempre repito nas palestras “Quem só pensa em perigo não tem tempo para ser seguro”. Está lá a prova. Aquela situação é um horror, um crime contra a população, mas também é um certeiro aprendizado.

A equipe do SBT, que está ali por minha causa, fica fascinada com a baderna. Material de primeira.
Seguimos para a Ciclovia da Radial Leste, onde queria eu mostrar a eles, SBT, os problemas de uma ciclovia que estaria abandonada pelos ciclistas: entre uma via expressa e uma parede, praticamente sem acessos, barulhenta, poluída, desagradável - vazia. Paramos debaixo da Estação Guilhermina-Esperança e ai, para minha completa alegria, passam vários ciclistas disparados, muito mais rápidos que o congestionamento da via expressa. Para mim notícia melhor não pode haver. Todos que ali foram fazer vistoria afirmavam, não faz muito, que não viram um ciclista sequer, dinheiro jogado no lixo. Não é mais. Prova que o uso da bicicleta segue crescendo mais firme e forte do que imaginamos. Aviso aos navegantes, ninguém para mais a bicicleta.  

O trânsito de carros é infernal. Uma hora e meia em 14 km de Radial Leste até o Centro. Experiência horrível.  Da Penha até a estação do Metro Tatuapé a ciclovia continua, mas ai vazia. Onde foram parar os ciclistas? Pelo menos terminaram o que faltava e a ciclovia não está mais interrompida. Falta ser concluída até o Centro. De carro é impossível, deprimente.
Chegamos na av. Faria Lima. Lei de Murphy, nos primeiros momentos não se vê um ciclista sequer. Só uma brincadeirinha do destino. Logo passa por trás do câmera, que ainda monta o equipamento, uma alta, linda e chique menina pedalando uma feminina. Como fada madrinha depois dela os ciclistas reaparecem num zoológico completo. Ninguém mais para a bicicleta em São Paulo. Trabalho realizado.

Mesmo a tristeza de ter perdido minha câmera fotográfica tira o tesão do que vi. Sobrou a filmadora.


segunda-feira, 20 de maio de 2013

Bullying

Felizmente sociedades atrasadas, como a nossa, passaram a discutir abertamente agressão familiar, entre pais e principalmente de pais contra seus filhos, e o bullying nas escolas. Olhando no entorno fica claro o tipo de educação que foi dada pelos pais a cada um de meus amigos e parentes. Quem teve pai sensato, amoroso, cuidadoso, bravo, não brutal, acabou tendo uma vida mais tranquila, produtiva, sem grandes dramas. Pais violentos, brutos, insensatos, envolvidos com álcool ou outras drogas, deixaram um legado de manchas visíveis na alma dos filhos.

Hoje fala-se muito sobre bullying nas escolas, que é triste. Pouco se fala sobre bullying familiar ou social, mas felizmente também avançamos nesta discussão. O problema é que a discussão que se faz está caminhando no atoleiro do politicamente correto. Da libertinagem para a boçalidade. Algumas brincadeiras estúpidas de colegas ou mesmo uns puxões de orelha merecidos podem ser bem educativos, mesmo que não seja terapeuticamente o melhor caminho. A diferença entre o sadio, apropriado e daninho, prejudicial está na frequência e a dose, como tudo nesta vida.

No Fórum Mobilidade e Segurança em Duas Rodas promovido pela ABRACICLO ouvi da plateia o 1º Painel: Bicicleta – um Movimento Seguro, com a mediação de minha adorada Renata Falzoni para Felipe Aragonez, Nabil Bonduki, o divertidíssimo Prof Dr. Paulo Saldiva, e Willian Cruz. Tirando o ótimo humor do Paulo Saldiva e necessária formalidade do Vereador Nabil Bonduki, restou o discurso sangrento, inquisidor e repetitivo dos três ciclistas, Renata, Willian e Felipe. Triste. Sempre a mesma coisa: carros e motoristas são as bestas do apocalipse... etc... e tal.... Ciclistas são bonzinhos.... etc... e tal... Bullying social puro, nada mais que isto. Triste.


A realidade não sustenta tal discurso. Ciclistas não fogem nada da brutal realidade brasileira. É um banho de sangue geral, não exclusivo. Ciclistas não são mais nem menos vítimas do que todos outros. Querer diferenciar a humanidade dos ciclistas da dos motoristas de ônibus, carros e motoboys é esticar demais a corda. Bicicleta no Brasil segue a passos firmes o caminho traçado dos motoboys. São todos uns malvados! 

domingo, 19 de maio de 2013

Virada Cultural SP - 13!



Acabei não indo ontem à noite, mas, como sempre faço, hoje pela manha fui ver como estava a Virada Cultural de São Paulo. Circulamos um pouco, no circuito dos palcos, e achamos estranho a pouca quantidade de público andando pelas ruas e assistindo os shows. Em todas as edições passadas mesmo cedo pela manha as ruas estavam bem cheias. Meio gente madrugadora e meio os bêbados de última hora, mas bem populado. Olhei para o céu para ver o tempo. Não fez tanto frio a noite, nem houve sequer ameaça de chuva. Noite agradável. Teresa ponderou que pode ter sido a escolha dos convidados. Duvido. O pessoal que vem de espírito aberto. “Deixa rolar”.

Sai do Largo do Arouche, deixei Teresa e Silvia, que iam ver algo na Estação da Luz, e fui cumprir minhas obrigações com a diabete: correr e nadar. Quando sai da piscina encontrei amigos conversando sobre a Virada. “Fizeram arrastão...” Resolvido o mistério. Arrastão no meio da Virada Cultural? Uau! Não há mais limites.

O que houve na Virada Cultural de São Paulo? A quem interessa o que aconteceu? A quem interessa este empurra-empurra de responsabilidades entre PM e Prefeitura que já aparece nas notícias? A resposta pode estar lá atrás, em algumas posições populistas que protegem indiscriminadamente minorias, jogando toda culpa de qualquer coisa sobre os ombros das autoridades de segurança e principalmente dos ‘inimigos do rei de Paságarda’. Vale tudo. E deve ter valido. A PM fez corpo mole? A administração petista quis deixar rolar...? O Serviço de Inteligência foi pego de surpresa? O que realmente aconteceu? Provavelmente a população vai engolir qualquer versão e fica por isto mesmo. Ganha a parte que tiver a melhor verborreia.

Estranhos estes nossos dias. A administração do PT concentrou todos eventos da Virada Cultural no Centro, extinguindo tudo o que acontecia na periferia, bem ao contrário do governo anterior, dito por eles inimigo dos pobres e oprimidos. No meio das conversas que ouvi alguém disse que a vinda da periferia para o Centro teria sido a causa dos arrastões e outros tipos de violência que aconteceram a noite e de madrugada. Definitivamente não concordo. Mas acho incrível matar a diversão na periferia e querer todo mundo concentrado no Centro. Cheira a “sejam escravos do transporte público” ou “viva a ‘democracia’ (tão repetida por eles) centralizadora”. Ou terá a ver dar exposição a prédios do Centro invadidos por movimentos sociais? Deixamos de pensar para cair numa esquizofrenia. Talvez faça parte do projeto de radicalização em andamento.

E a violência, a quem interessa? Um dos que estavam na conversa da piscina foi soldado em Israel. Fala pouco sobre o assunto, mas tudo indica que viveu a coisa real, foi para o pau.Uns dias antes, na mesma piscina, conversamos sobre a violência que vivemos no Brasil. Perguntei-lhe onde é pior, se aqui ou lá, Israel, que vive um estado de guerra constante. “Aqui, muito pior, aqui. Não há comparação”.

Espero que a Virada Cultural resgate seu charme de cultura da paz e liberdade. Cultura de paz! E espero que no próximo ano esta Administração petista, que até agora soube abrir estrategicamente suas portas para os ciclistas, lembre-se deles e coloque vários bicicletários com segurança. Muito ciclista, mas muito ciclista mesmo, circulando pela área do evento, sem ter onde estacionar... Quando chegamos para tomar o café o segurança pediu que colocássemos as bicicletas para dentro... “Como? desculpe, não entendi”.