No meio de 4 amigos, ex ciclistas profissionais com respeitáveis currículos, inclusive internacionais, ouvi deles sobre o medo, ou pavor, se pedalar nas ciclovias de São Paulo. "Prefiro peladar no meio dos carros, que é muito mais seguro. Este pessoal que pedala na ciclovia não faz ideia do que faz, além de serem grosseiros" soltou um deles seguido da concordância dos outros, e rios todos. Não dou nomes aqui, mas digo que são reconhecidos e bem respeitados fora do Brasil, venceram provas e campeonatos do calendário internacional. Aqui são desconhecidos, por isto não servem de exemplo, não podem deixar um legado social que gostariam. Aos que os ouvem, ensinam regras importantissimas de tecnica, convivência, condução e respeito ao próximo, básico para qualquer ciclista.
Como está num dos comentários feitos aqui, falta educação, com certeza. Falta não só educação, a básica, aliás, a básica do básico, mas falta um minimo de civilidade, ou pior, civilidade.
A introdução da bicicleta ganhou importância mundo afora, não só pela questão da mobilidade, mas muito mais pelas transformações individuais, sociais e na qualidade de vida urbana que sua presença e uso trouxe e traz. Diminuição da violência, melhora da qualidade de vida do usuário, com acréscimo de 7 anos de vida, redução dos custos com saúde pública, melhora da micro economia local, melhora dos indices escolares dos filhos, melhora da produção no trabalho, melhora da percepção ambiental com consequente melhora do ambiente em geral, melhora do verde e qualidade da água, etc..., é o que mostram pesquisas internacionais sobre o ocorrido mundo afora.
Mesmo num centro urbano tão saturado e confuso como NYC, a introdução bem realizada da bicicleta (no cidade sustentável de Janette Sadik Khan) trouxe e segue trazendo benefícios muito além da mobilidade. Ganharam todos, ganhou toda população, ganhou a economia, ganhou a cidade, ganhou os Estados Unidos. Bicicleta bem introduzida é um ganha ganha, o que já não resta dúvidas desde 1972 quando Amsterdam e outras cidades decidiram implantá-la como parte de um extenso programa de recuperação social e urbana.
O problema que temos aqui é que Brasileiro não faz ideia do que é ou deveria ser uma cidade. Nossa noção de civilidade para no selfie, fenômeno social que nos tornamos campeões mundiais. Salve-se quem puder. Eu tenho direito. "Eu tenho direito" vem sendo discurso recorrente, se pode dizer doutrinação. Esperar o que dos usuários das ciclovias implantadas, incluindo aí os que treinam na Ciclovia do Rio Pinheiros que não fazem ideia sequer do que é etiqueta esportiva?
No geral, como é de se esperar, "você sabe com quem está falando?". Este é nosso problema.
Perdemos uma oportunidade de ouro com a forma como a bicicleta foi e continua sendo estimulada. Não é "a bicicleta, pela bicicleta, para a bicicleta" como foi (im)posto, mas sobre a cidade, sobre os cidadãos e no que a bicicleta pode auxiliar na mudança para uma melhora geral, para tudo, para todos, sem exceção.
Sim, "quantos km a mais melhor" foi ideologia, populismo eleitoral. Aliás não foi exceção, mas atendeu a regra geral de como se programa este país. Jogou-se dinheiro público no lixo com kms e kms de segregações que praticamente ninguém usa. Os próprios envolvidos no processo confessam que foram uns 25%. Hoje tem quem fale em bem mais.
Não só daria, como deveria ter sido feito diferente. Importantes ONGs internacionais estiveram aqui trazendo expertise sobre como introduzir a bicicleta da melhor forma. Esforço inútil. "Nós somos diferentes e fazemos do nosso jeito". O desastre está aí. Transformar uma cidade não se faz com libertinagem imobiliária, de transporte e mobilidade, como a que estamos vivendo. A experiência dos outros é preciosa, mas quem de nós se interessa? "Eu quero o meu. Eu tenho direito". E... Selfie!

Nenhum comentário:
Postar um comentário