Nas décadas de 70 e 80 o Brasil foi o terceiro maior fabricante de bicicletas do planeta. A qualidade das bicicletas estava longe de uma qualidade desejável, os defeitos se sucediam, alguns afetando a segurança do ciclista. Foi uma luta para tentar melhorar a qualidade via propostas e projetos de lei, manifestos entregues para políticos, conversas, reuniões, artigos publicados, uns tantos inimigos e muitos não levando a sério. E um dia aprovaram a obrigatoriedade de selo de qualidade IMETRO. A alegria acabou rapidinho quando ficou claro os procedimentos para aprovação e seu controle posterior. Lei brasileira, detalhes mais detalhes, mais detalhes, uma meada de procedimentos e regras sem fim, pelo menos no que se refere ao prático e funcional.
Lá fora, no mercado de primeiro mundo, a bicicleta, um veículo, não pode apresentar qualquer defeito, ponto final. A qualidade é estabelecida em cima do conjunto, do todo, não nos pequenos detalhes. Aqui, uma bicicleta tem que ser aprovada peça por peça, detalhe por detalhe, tintim por tintim. Mudou o tamanho, modelo, forma ou mesmo detalhe de uma peça que tenha a mesma função mecânica, tem que passar por novo teste para receber o selo IMETRO.
Para entender a brincadeira. Houve, por exemplo, uma confusão tremenda com a Ferrari, sim os responsáveis carros esportivos, mas pelas leis brasileiras precisariam ser desmontados para testes de cada detalhe, mais um crash teste. Virou piada. Não temos sequer laboratório com capacidade para isto.
No universo das bicicletas se quis obrigar que pneus Vitória, de altíssimo rendimento, recebessem selo do IMETRO impresso para serem vendidos no Brasil. Enquanto isto alguns pneus e câmaras 'Made in Brazil' que não atendiam a um padrão minimo de qualidade recebiam o selo.
Antes destes exemplos, um modelo de bicicleta de um dos grandes foi recusado no mercado boliviano. Acabei sabendo desta história porque a propaganda da bicicleta foi feita com minha imagem... sem que eu soubesse e muito menos tivesse autorizado. Óbvio que pedalei a dita bicicleta e ela era... vamos deixar pelo "ruinzinha".
Bom, era assim, e não faço ideia de como está agora, mas...
Acabei de ver um vídeo mostrando como é a fabricação de peças com rolamentos para bicicleta da Cris King, uma joia feita em CNC com qualidade muito próxima à Fórmula 1. Parte do maquinário foi fabricado nas décadas de 50 e 60 e ainda produzem peças com precisão de milésimo de milimetro. Tornos e fresas da década de 60? Sim, Cris King fala com orgulho delas.
Já volto a está história.
Minha briga pela qualidade das bicicletas começou numa época que nossas fábricas ainda trabalhavam no décimo de milímetro, quando tanto. Não só no setor de bicicletas vi muitas destas máquinas funcionando, algumas maravilhosamente bem, outras precariamente, sem qualquer manutenção. Uma das razões para o setor industrial de bicicleta no Brasil ter quase desaparecido do cenário mundial foi, dentre outras, o "temos que produzir, temos que vender, não importa o que". Em outras palavras, ganhar dinheiro até sucatear tudo. Não foi só aqui que fizeram esta burrice. A Raleight, o maior fabricante de bicicletas da Inglaterra e do mundo, sumiu do mapa pela mesma estupidez. Mas as Raleight tiveram algum respeito pela qualidade.
O Brasil de hoje, e o que falam os que conhecem.
Quem administra bem empresas ou dinheiro usa uma regra de ouro que a história ensinou: não colocar todos ovos numa mesma cesta. Nossa economia vai bem (?!?), mas uns poucos alertam que precisamos de um setor industrial mais forte para dividir nossos ganhos e termos mais estabilidade. Fala-se muito, e com toda a razão, na questão das leis e do sistema tributário, um caos. Ia esquecendo: a condição de nosso maquinário. O que nos ensina um Cris King?
Fala-se pouco sobre educar a população sobre o valor e a importância estratégica da qualidade (de verdade), a melhor possível, em tudo. No final das contas quem de fato define qual qualidade um país terá é o povo. Para terminar, nossos órgãos regulatórios funcionam como deveriam? Como cidadão, digo que não me parece.
Pergunto: quanto se pode confiar num selo IMETRO? Vale alguma coisa fora do Brasil? Serve como referência para exportações? Ou o problema interno da qualidade de nossos produtos com selo IMETRO se dá pela falta de fiscalização? Ou seja, "vai, mané, que o selo garante" (que vai demorar um pouco mais para dar defeito). Qual o índice de burla ou falsificação?
IMETRO? Tive que trocar o garfo rígido de minha bicicleta 26 pela terceira vez. Imperícia minha? Não. Falta de confiança no material, não há outra opção no mercado. Ou é este ou é este, ponto. Óbvio que se fosse rico traria de fora, mas não é meu caso. Todos vieram com selo IMETRO e todos vieram desalinhados de fábrica. O que consegui trazer para o alinhamento veio com o suporte de freio a disco desalinhado e... mesmo sem ter feito um teste mecânico padrão IMETRO, afirmo que sua flexão lateral, ou torção, está fora do que deveria ser padrão de segurança. Como sei? Macaco velho que sou, 50 anos de história no meio e tendo tido umas 50 bicicletas ou mais, nacionais e importadas, baratas e caras, acho que sei quanto um garfo pode torcer.
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