A vida se recicla. Muito antes da civilização inventar esta coisa de reciclagem a vida vem se reciclando naturalmente. A pergunta sobre o sentido da vida feito para o sábio eremita do topo do montanha é cientificamente simples de responder: a vida é uma constante reciclagem.
Esta época do ano tem uma forte relação com o recomeçar. Para muitos Natal é o nascimento Daquele que veio para nos guiar e ano novo é a reafirmação da esperança de um tempo novo e próspero. Pois então, Feliz Natal e Próspero Ano Novo a todos. E para a maioria a reciclagem está realizada. Algo parecido com a reciclagem econômica que sem as grandes festas iria ser complicada, pelo menos sob os padrões que temos até hoje.
O budismo fala sobre o óbvio: nascemos, vivemos e morremos. O homem que nasceu neste dia, hoje chamado Natal e representado por Papai Noel, tem um período de sua vida, entre seus 14 e 30 anos de idade, ainda desconhecido. Há estudiosos que dizem que Jesus Cristo perambulou pela Índia e talvez mais além, que lá teve contato com o Hinduísmo e Budismo. Como qualquer outro homem, portanto ser biológico, Cristo nasceu, viveu e morreu, cumpriu o ciclo normal da vida, reciclou.
Por mais que tenhamos avançado como sociedade nossa vida continua sendo conversada em torno do nascer e viver. Morrer é um tema desagradável, não raro inoportuno, que de preferência deve ser evitado. Morrer está diretamente relacionado com tristeza, dor, perda, e muito pouco com transformação, reciclagem, naturalidade dos fatos, inevitável. Talvez o melhor saldo deste ano que agora termina foi ter surgido um início de discussão mais séria sobre o direito de morte de pacientes terminais. Passei uns 7 anos acompanhando o final da vida de pessoas queridas e acabei aprendendo sobre a naturalidade da morte, por isto faço meus mais profundos votos que um dia, o mais breve possível, ela faça parte da vida. Talvez um dia a humanidade agradeça ao Black Sabbath original, o do Ozzy, por ter brincado com as coisas do outro lado da vida, mas no meu dia prefiro uma boa e alegre banda de jazz.
Morte foi natural até o momento em que começou atrapalhar alguns interesses, principalmente de senhores feudais. Manter o pessoal vivo é mais lucrativo. Negócios são negócios e como qualquer outro instrumento a morte passou a ser usada e abusada como eficiente forma de controle social. A igreja que o diga. Refinou-se tanto a técnica do marketing da morte que um dia surgiu o purgatório, o mais fino esmero da sacanagem: quem é mandado para lá pode negociar seus pecados, ou seja, pagar com juros e correção monetária, e assim voltar para o paraíso. Já no inferno a coisa pega para valer, mas sempre se pode dar um jeitinho. Medo faz milagres. Pavor coletivo então...
Jesus Cristo está no banco de reservas. Foi substituído pelo Papai Noel estilo Coca Cola, um velhinho simpático, que por ironia do destino continua sempre corado, vigoroso e nunca morre. Sua sobrevida sorridente ajuda a amenizar nossas agruras naturais da vida e nos dá a eterna esperança que nossa meia pendurada numa árvore enfeitada amanheça recheada com o nosso mais profundo desejo, normalmente algo individual e individualista. É meu! E também cria uma certa obrigação de dar algo para alguém ou para alguns. Dar não é exatamente doar. Dependendo do espírito dá-se ou doa-se, normalmente na esperança de ter algo em troca. Com a morte real não há troca, escambo ou negócio. Morte é definitiva. Nascimento é definitivo. A vida, queira ou não, também é definitiva. Sem entender o que é definitivo na esteira do transitório que nunca pára, onde tudo um dia cai, segue e desaparece, do maravilhoso ao péssimo, indiscriminadamente, não é possível entender o que é de fato viver com naturalidade.
A vida passa por nós e se não souber olhar este processo com plena naturalidade dificilmente viveremos a vida real de cada momento, de cada pessoa, de tudo que nos cerca. Muito provavelmente estaremos presos a preceitos primitivos, bárbaros e medievais que ainda sabotam o potencial que a humanidade vem constantemente criando pelos séculos. O elo perdido é a morte, o fim definitivo, o termino, a certeza que haverá reciclagem. Nosso corpo se recicla constantemente; nossa mente, sua inteligência e emoções também. Morremos e nascemos biologicamente a todo segundo. Transformação química pura. Não há porque negar a morte, não há porque temê-la. É natural. Imagine só a cara de saco cheio de Jesus se ele tivesse a certeza que nunca iria morrer.
Viver é fantástico; bem entendido: nascer, viver e morrer. Reciclar
Boas Festas a todos
Arturo Alcorta, Escola de Bicicleta, sobre a vida, rodando um pouco por tudo
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Cidade brasileira; caos e segurança
A bicicleta me levou a cantos de várias cidades, do Brasil e do exterior, que normalmente um cidadão comum não vai, aliás, geralmente nem sabe que existe. A cidade existente de um cidadão comum é o trajeto que ele faz em seu carro ou transporte de massa, portanto é essencialmente a cidade das vias principais e do caminho para o trabalho, estudo ou diversão. O que está fora desta rota sequer é visto. A cidade fora dos hábitos é um território praticamente desconhecido. A quantidade de gente que nunca foi ao centro de suas cidades é muito grande. Parecido com criança que acha que só existe o frango congelado do supermercado. Frango vivo ciscando pode ser apavorante.
Várias pessoas foram levadas pela bicicleta a circular em uma cidade que lhes é bem pouco conhecida, até mesmo a que passa na porta do carro diariamente. Quem sai do carro, de suas pequenas janelas e alta velocidade, simplesmente fica impressionado com o local onde vive, seja para o bem ou o mal. A maioria descobre que a cidade, principalmente à noite, é muito mais simpática do que (não se) vê de dentro de uma caixa de vidros pretos. Normalmente o cidadão motorista que está pedalando quer ir descobrir, ou melhor, redescobrir o que já é conhecido; ou que acreditam que seja. Passar devagar, caminhando ou pedalando, pela avenida na qual estão fartos de ficar parados no congestionamento, já o máximo da emoção de novas descobertas. Conhecer a rua de cima ou de baixo, parar na praça, no boteco é mágico. Mas dificilmente aceitam entrar em locais desconhecidos, mais simples, ou passar por uma favela, uma área dita violenta, mesmo que você, guia experiente e respeitado, assine em baixo que conhece o pedaço e que ali não é o que se imagina ou dizem. Os que aceitam o “desafio” geralmente tem um choque de culturas e verdades.
Entrei algumas vezes em favelas. Uma delas no Rio de Janeiro, quando tive que levar uma empregada doméstica para casa porque estava com caxumba ou coisa semelhante. Quando me pediram o favor de subir a menina dei pulos de alegria pela chance de ver o morro por dentro. Na subida do Morro do Vidigal passamos por 4 revistas armadas dos traficantes. Como estava levando gente da comunidade seguimos sem problemas. A via, a medida que chegava mais próxima ao topo do morro, estreitava, trazendo uma apavorante claustrofobia até para um visitante acostumado a lugares estranhos. Os últimos quarteirões permitiam a passagem só de meu pequeno carro. Um caminhão ali, se passasse, passaria raspando as paredes dos casebres. A casa da menina ficava exatamente no topo, com uma incrível vista: de um lado São Conrado, d’outro Leblon e Ipanema. Deslumbrante. Quanta inveja. A riqueza da vista só permitida aos mais pobres, olheiros e comandantes do morro.
Na Paraisópolis, Morumbi, São Paulo, a situação foi diferente. Entrei com Jonas para fazer vistoria no trecho que deveria receber então o início de uma ciclovia que nunca saiu do papel, a Paraisópolis – Shopping Butantã / Eliseu de Almeida. Fora da favela umas poucas pessoas na rua, os carros que passavam apresados. Dois quarteirões a frente, já dentro da favela, gente tranqüila conversando ou caminhando, um comércio simples e variado, nem sinal de armas e traficantes. Quando começamos a tirar fotos veio alguém, um pau mandado, verificar o que estávamos fazendo lá, e só. Estava na cara que éramos alienígenas no pedaço e que o sujeito estava checando para os donos do pedaço. Eu e Jonas ficamos pasmados com a vida borbulhando ali e o contraste com o bem organizado, limpo, rico, sofisticado, cheio de seguranças e ao mesmo tempo absolutamente morto bairro que fica logo ao cruzar a rua de volta à civilização; seja esta o que quer que seja que a esta altura não sei mais.
O que você prefere? Que cidade queremos? Esta é a pergunta que me faço e que ouvi ser repetida por Henrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá e responsável direto maior transformação urbana destas últimas décadas. Peñalosa fez um comentário assustador: São Paulo, a cidade mais rica do país, não tem crianças circulando nas ruas. Deprimente! Nas favelas têm. Ironia, vida corre solta para os desprotegidos e é um presídio para os privilegiados. O sonho dos “bacana”, “gente fina”, é circular num carro blindado. Ou será brindado? A verdade blindada não leva a uma vida que deve ser brindada.
Contraste é o que mais há em nossas cidades. E como fazemos questão de não olhar o outro lado de nossos muros o que há no lado pobre é por princípio um conto de terror. Não é bem verdade. Onde está a cidade feliz? Onde estão as pessoas livres? Quem é livre? O que é liberdade? Não nos damos conta que o conto de terror real é não buscar melhorias para nossa própria vida e que este passo passa obrigatoriamente pela melhoria da vida do próximo, de todos e principalmente dos menos favorecidos. Não se trata de piedade, socialismo barato, mas de sensatez, de lógica. Melhorar a condição básica dos necessitados - leia-se melhorar a cidade - é o caminho mais curto e simples para chegar aos resultados que nós desejamos. Se quer se auto-proteger, ser egoísta, pelo menos seja com inteligência. Não existe solução para um lado só. Quanto melhor o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) geral, melhor a vida individual. Ou vamos todos, ou não vai ninguém. É escolher entre a burrice do blindado ou ser brindado pela vida.
A bicicleta me deixa cada dia mais ansioso sobre o futuro. Vejo cidades escondidas com grande potencial para construir uma vida melhor. O que muitas vezes parece uma baderna urbana nos dá inúmeras oportunidades. Duro é mudar uma cidade projetada, quadriculada, cartesiana, protegida, construída para fins específicos. Vide Brasília. Caos pode ser aproveitado, arranjado, transformado de várias formas. O que está petrificado, cercado, isolado, blindado, definitivamente arranjado, está doente, está dissociado da realidade da vida moderna, das urgências para o bem de todos. É necessário se abrir ao caos. Não precisa aceitar, mas pelo menos reconhecer e aproveitar ensinamentos para um novo conceito de segurança e felicidade. Afinal, uns tem morte por falta de segurança, bala perdida, brutalidade; outros comentem suicídio social por medo da vida, por medo da mudança. A bicicleta oferece a liberdade de ver e sentir o caos da vida com equilíbrio e sensatez. O carro dá a chance de passar rápido e não ver nada que desagrade. Dizem que bicicleta é insegura e que o carro é seguro. Depende muito, mas eu tenho mesmo é medo de andar de carro, muito medo. Estarei ficando louco?
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Sobre corte no orçamento e as mobilidades sustentáveis
O Estado de São Paulo
Fórum do Leitor
Fica aqui meu pedido à Presidente Dilma Rousseff para que todos trabalhos e projetos para melhoria da segurança e conforto de mobilidades não motorizadas, ou seja, pedestres, deficientes físicos e de mobilidade, e ciclistas, não sejam incluídos no corte de orçamento da União que se faz necessário.
Dado que a maioria da população se transporta a pé, que todo brasileiro, mesmo os mais motorizados, é em algum momento de sua vida um pedestre; que aproximadamente 14% da população é deficiente físico ou tem deficiência de mobilidade; que a bicicleta é o veículo mais usado no Brasil, tendo relevante importância no transporte e subsistência de boa parte da população, principalmente a massa menos privilegiadas; que todos estes sempre foram e continuam sendo colocados em planos secundários relativos a questão da cidade, de seu trânsito e transporte; que a reconstrução das cidades e de nossas vidas, principalmente dos pequenos, geração futura, só será viável se for respeitada e legitimada a vida de todos, onde crianças, como seu neto Gabriel, possam circular e brincar livres e seguros pelas ruas.... Dado o baixo investimento voltado especificamente para não motorizados, que por si só traz o patético nonsense do termo “não motorizados”, termino esta novamente pedindo que não se tire o direito do pobre (e de todos nós) caminhar em uma calçada digna, praticamente inexistente em boa parte do Brasil; que não se mantenha em prisão domiciliar os deficientes, como hoje acontece; que dezenas de milhões de ciclistas estudantes e trabalhadores (e todos outros) também possam ter direito ao uso seguro das vias e de cruzar pontes...
Enfim, Excelentíssima Senhora Presidente do Brasil, Dilma Rousseff, como ciclista, pedestre, tio avô, e principalmente como cidadão responsável por e com todos, peço que todo orçamento voltado à vida seja pelo menos mantido, quando não ampliado. É mais barato investir em previdência e futuro, que pagar contas de acidentados. Todos nós agradecemos. Gabriel em tempo lhe agradecerá
Arturo Alcorta
RG.: 3.472.416 SSP SP
rua Eugênio de Medeiros 465, Pinheiros - 05425-001
São Paulo, SP
011-9248-8747
Fórum do Leitor
Fica aqui meu pedido à Presidente Dilma Rousseff para que todos trabalhos e projetos para melhoria da segurança e conforto de mobilidades não motorizadas, ou seja, pedestres, deficientes físicos e de mobilidade, e ciclistas, não sejam incluídos no corte de orçamento da União que se faz necessário.
Dado que a maioria da população se transporta a pé, que todo brasileiro, mesmo os mais motorizados, é em algum momento de sua vida um pedestre; que aproximadamente 14% da população é deficiente físico ou tem deficiência de mobilidade; que a bicicleta é o veículo mais usado no Brasil, tendo relevante importância no transporte e subsistência de boa parte da população, principalmente a massa menos privilegiadas; que todos estes sempre foram e continuam sendo colocados em planos secundários relativos a questão da cidade, de seu trânsito e transporte; que a reconstrução das cidades e de nossas vidas, principalmente dos pequenos, geração futura, só será viável se for respeitada e legitimada a vida de todos, onde crianças, como seu neto Gabriel, possam circular e brincar livres e seguros pelas ruas.... Dado o baixo investimento voltado especificamente para não motorizados, que por si só traz o patético nonsense do termo “não motorizados”, termino esta novamente pedindo que não se tire o direito do pobre (e de todos nós) caminhar em uma calçada digna, praticamente inexistente em boa parte do Brasil; que não se mantenha em prisão domiciliar os deficientes, como hoje acontece; que dezenas de milhões de ciclistas estudantes e trabalhadores (e todos outros) também possam ter direito ao uso seguro das vias e de cruzar pontes...
Enfim, Excelentíssima Senhora Presidente do Brasil, Dilma Rousseff, como ciclista, pedestre, tio avô, e principalmente como cidadão responsável por e com todos, peço que todo orçamento voltado à vida seja pelo menos mantido, quando não ampliado. É mais barato investir em previdência e futuro, que pagar contas de acidentados. Todos nós agradecemos. Gabriel em tempo lhe agradecerá
Arturo Alcorta
RG.: 3.472.416 SSP SP
rua Eugênio de Medeiros 465, Pinheiros - 05425-001
São Paulo, SP
011-9248-8747
Bicicletas públicas em Buenos Aires
Matéria sobre inauguração das bicicletas comunitárias em Buenos Aires:
http://videos.lanacion.com.ar/video18006-se-inauguro-el-sistema-de-bicing-en-la-ciudad
Buenos Aires vai aos trancos e barrancos implementando a bicicleta como modo de transporte. Para quem não sabe até a década de 90 foi "proibido o uso de veículos movidos a sangue" na cidade, o que incluía a bicicleta. Ademais a cultura do automovel é muito forte e tradicional. O automobilismo de competição faz parte da vida dos argentinos, que sempre tiveram uma forte indústria no setor.
Buenos Aires tem um trânsito muito especial, que flui as custas de motoristas que usam pouco os freios, mudam de direção suavemente e com constância, semaforização sequencial, enfim, um tanto estranha para um ciclista. Não senti agressividade latente, como em algumas outras capitais que pedalei, mas a primeira vista tudo parece uma tremenda baderna, o que não é. Pedalar em BsAs é relativamente tranquilo, só tendo que tomar muito cuidado nos cruzamentos no meio dos bairros.
O sistema cicloviário existente foi desativado (pelo que me contaram) e um novo está sendo projetado por uma empresa de engenharia brasileira, a Logit, se não me falha a memória.
Para terminar, pedalar no Parque Palermo, onde se encontra este bicicletário do vídeo acima, é uma maravilha. Infelizmente há problemas de segurança, o que é triste, já que BsAs tinha índice praticamente zero de crimes há algumas décadas.
http://videos.lanacion.com.ar/video18006-se-inauguro-el-sistema-de-bicing-en-la-ciudad
Buenos Aires vai aos trancos e barrancos implementando a bicicleta como modo de transporte. Para quem não sabe até a década de 90 foi "proibido o uso de veículos movidos a sangue" na cidade, o que incluía a bicicleta. Ademais a cultura do automovel é muito forte e tradicional. O automobilismo de competição faz parte da vida dos argentinos, que sempre tiveram uma forte indústria no setor.
Buenos Aires tem um trânsito muito especial, que flui as custas de motoristas que usam pouco os freios, mudam de direção suavemente e com constância, semaforização sequencial, enfim, um tanto estranha para um ciclista. Não senti agressividade latente, como em algumas outras capitais que pedalei, mas a primeira vista tudo parece uma tremenda baderna, o que não é. Pedalar em BsAs é relativamente tranquilo, só tendo que tomar muito cuidado nos cruzamentos no meio dos bairros.
O sistema cicloviário existente foi desativado (pelo que me contaram) e um novo está sendo projetado por uma empresa de engenharia brasileira, a Logit, se não me falha a memória.
Para terminar, pedalar no Parque Palermo, onde se encontra este bicicletário do vídeo acima, é uma maravilha. Infelizmente há problemas de segurança, o que é triste, já que BsAs tinha índice praticamente zero de crimes há algumas décadas.
O que me deixa triste é que a quantidade de bicicletas e as urgências que temos aqui em São Paulo são muitíssimo maiores que as de Buenos Aires e praticamente nada acontece aqui, ou acontece num passo de galinha, como disse Soninha
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Bikefit e Cleber Anderson
Conheço Cleber há muitos anos, desde 1989, quando trabalhamos juntos na extinta Bicisport. Acabei conhecendo toda sua família, seis irmãos ligados ao ciclismo de competição, um deles, Clovis, um dos melhores ciclistas olímpicos da história do Brasil. Com eles aprendi um bocado. Cleber, em particular, sempre teve a curiosidade para ir além dos usos e costumes do ciclismo. A razão, como o próprio contou na abertura da palestra, foi sua formação como técnico em mecânica e a faculdade de educação física. Bem vindo à biomecânica.
O curioso de ouvir Cleber falando agora é que nós, da Escola de Bicicleta, estamos preparando uma nova página para o site, exatamente sobre bikefit. O pouco que conheço sobre o assunto vem de leitura, da minha formação de faculdade (fisiologia para desenho), da necessidade do conhecimento do meu próprio corpo por causa das inúmeras lesões causadas pela diabete e as molecagens. Cleber esclareceu detalhes sobre a evolução das técnicas de bikefit, confirmou minhas suspeitas que fórmulas prontas costuma levar a erros de postura, alguns até grandes.
Valéria, ótima parceira e webmaster do site, é mais que uma curiosa, é uma estudiosa do assunto e conhece todas estas coisas muito melhor do que eu. Sempre está mostrando sites com formas e formulas diferentes de bikefit, o que nos faz pensar muito sobre como dar aos iniciantes uma melhor orientação. De minha parte sempre houve algo que eu não achava que estava no ar, afinal não tenho dúvida que somos todos um tanto diferentes, corpos e mentes tão próximos e tão distantes para os quais fórmula matemática pode até servir como referência, mas não como verdade definitiva.
Cleber matou minha xarada, óbvia por sinal: a diferença na forma e tamanho da bacia é o fator que fórmulas. Distâncias entre o acetábulo / cabeça do fêmur e os ísquios varia muito, o que faz com que o cálculo para chegar à altura do selim pela medida do cavalo não seja uma relação matemática exata. Cleber contou, mostrando várias anotações suas destes anos fazendo bikefit, que a diferença chega a alguns centímetros de pessoa para pessoa. Pela maneira que ele usa para chegar a altura correta basta o ciclista sentar no selim, largar as duas pernas e subir o canote até o calcanhar raspar no pedal. Dê uma olhada em http://www.andersonbicicletas.com.br/ ; > equipamento; >> bike na medida.
O velho genérico é este:

Outro ponto interessante foi sobre a questão da forma do selim. Dependendo da forma da bacia e alongamento do ciclista, (e digo eu do modelo de bicicleta que se vai pedalar, mais em pé ou deitado) o ponto de apoio dos ísquios no selim é diferente. Quanto mais alongado for a musculatura posterior do ciclista mais fino provavelmente será o selim ideal. Quanto menos alongado, mais largo. Forma da bacia!
Seguindo os passos da palestra, traseira da bicicleta ajustada corretamente para a perna, joelho e pé, então se vai para dorso e braços. Acertar posição correta de selim é possível até numa bicicleta errada para o ciclista, mas esta é traseira da bicicleta, falta a frente. O bikefit para dorso e braços só é possível com uma bicicleta de tamanho e geometria corretos para o ciclista que irá usá-la. Ai começa a sutileza que o público geral tem dificuldade de entender: ter uma bicicleta no tamanho apropriado não é necessariamente ter a bicicleta correta. Por que? Porque há diferenças na geometria empregada pelos fabricantes. De forma muito simples a diferença pode-se ver naquele desenho explicativo sobre pró / esportivas / básicas que temos no site.
Para que e para quem aquela bicicleta foi projetada é algo que o mercado e compradores tem muita dificuldade de entender. Para este caso Cleber deu o exemplo das bicicletas femininas. Para algumas marcas menos sérias são simplesmente bicicletas masculinas com tubo rebaixado ou em tamanhos menores pintadas de maneira feminina. A geometria é a mesma da masculina, o que não atende à corpo feminino que é bem diferente. Não dá para fazer um bikefit correto. No final fiz questão de lembrar aos formadores de opinião que eles têm quase uma obrigação de saber o que é uma bicicleta correta para o ciclista porque modelo, tamanho ou geometria errada é uma das principais razões para possíveis ciclistas se afastar dos pedais. Prova disto é o baixo índice de mulheres usuárias da bicicleta no Brasil. Mesmo os poucos modelos tamanho 17, que já é grande para a maioria das mulheres, vem com o mesmo avanço das masculinas, muito longo para elas. Tudo em nome da redução de custos.
Bicicleta chique não é a bicicleta status social, mas a luva que veste o ciclista. Fazer bikefit, que pode parecer um luxo ou frescura, ajuda demais a entender o que é de fato pedalar. E partir daí brincar de pedalar vira uma outra história, muito mais ampla, divertida e livre. Bicicleta é uma experiência humana mais ampla que parece; ao alcance de qualquer um, profissional, amador, transporteiro ou domingueiro.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Oh dia!, oh vida!....
Este texto esteve esquecido por muito tempo. Estou com saudades de escrever para o meu blog e não venho conseguindo tanto por falta de tempo, quanto porque estou meio capengando num cansaço que só se explica num “issstressssi” sem tamanho.
Vamos lá que não vai fazer muito sentido mesmo, mesmo assim vamos lá:
Do texto antigo:
2009 foi um ano magnífico para mim e para a Escola de Bicicleta, provavelmente o melhor de sua história. Ai veio 2010, ano dos meus 55 anos, grandes esperanças, festas, etc e tal. Ups! Não está sendo bem assim.
A verdade é que de fato neste final de 2010 ainda acho que está sendo um dos anos mais estranhos de minha vida. O primeiro semestre, quando escrevi este lamento que aqui está postado em itálico, foi uma loucura porque praticamente não pintou trabalho e mesmo assim não parei de trabalhar um segundo. O segundo semestre acabou entrando um ótimo trabalho, que no devido tempo conto, e virando a maré de uma falência trabalhosa para uma trabalheira quase que monetariamente compensadora, mas como experiência de vida e aprendizado maravilhosos, exaustivos, mas maravilhosos.
Por onde começar as lamentações? Certamente lembrando o personagem de Hanna Barbera, Hardy, a hiena, que lamentava absolutamente tudo com a frase “Oh dia, oh azar...” . Sem dúvida faz muito tempo que não tenho tempos tão tumultuados tão demorados, como o direito a repetir “tão” tantas vezes. “Tão tantas” dá boa letra de rock pauleira, Aliás, tão e tantas quantas eu bem entender!, digo para mim mesmo, ou será para eu mesmo. Par ou impar. Não precisa, fico com a última hipótese. Ninguém tem nada a ver com meu mau humor e minhas mazelas. Mas me guardo o direito: “Oh dia, oh vida...”
Um dia, sentado à mesa com uma tia, Maria Elena, sem “h”, falava eu sobre minha diabete e ela mandou de bica um “Você está ficando hipocondríaco”. Boas verdades não deviriam doer porque é o que de mais honesto se pode fazer com quem se respeita. Pelo menos consigo próprio, já que algumas vezes não dá para agüentar tanta choradeira. E ali percebi que deveria mudar de canal. E mudei. Aquele comentário acabou sendo marco de vida.
Dos bons momentos de minha família, quando minha mãe ainda vivia, era quando meu irmão, coração de ouro, mas mal humorado de nascença para algumas coisas simples e bestas, ficava tão mal humorado que disparava a rir sobre seu próprio mal humor. Numa das feitas chegamos a ter que levantar da mesa de tanto rir da situação. Aliás eu e minha mãe rolamos no chão às gargalhadas – literalmente. Não me lembro bem sobre o que se tratava, mas com certeza era fato insignificante na vida de qualquer ser normal, o que meu irmão não é muito, e que para ele era um drama. Até hoje não usa computador por que o marcador de posição de digitação fica piscando sem parar. “Não dá para parar esta merda. Assim é impossível”rosna alto ele. Não adianta argumentar que sem a marcação não haverá forma de saber onde você está no texto. Ele é da geração que se fez em máquina de escrever mecânica, tornou-se livre docente e publicou alguns livros, e nunca precisou de “uma coisa enervante piscando”. Tem cacife intelectual para que os que o cercam digitem seus trabalhos. Aliás, não entrega o trabalho sem acertar pagamento. O cômico é que digita maquina mecânica sem olhar para o teclado, e o faz rápido.
Ter consciência de seus próprios defeitos é quase uma arte. Acredito que olhar os próprios defeitos, erros ou deslizes, é o melhor caminho para o crescimento, para o amadurecimento. Alguns a gente não corrige. Talvez eu tenha me apropriado do ditado “não jogue para os outros seus próprios erros” com um pouco demais de ortodoxia. Pouco demais é uma expressão ótima, tipicamente brasileira, bem em cima do muro. Enfim, parto do princípio que se houve alguma coisa errada na qual estava de alguma forma envolvido provavelmente eu tenho uma parte de responsabilidade ou poderia ter feito diferente e ter chegado a um outro resultado. O que é de fato verdade, mas qual é o ponto de equilíbrio para minhas próprias cobranças? Amadurecer a que custo? Chego a esta altura do campeonato consciente que se o custo for muito alto a maturidade não vem. É óbvio que chutando todos paus da barraca também não. O ponto de equilíbrio está num botão vermelho bem grande e visível que fica no meio do painel de controle de nossas vidas, de cada uma delas, onde se lê “FODA-SE!”, mas quem de nós sabe usá-lo com sabedoria?
Quando tinha uns 20 anos eu dei uma exagerada na festa e tive o que parece ter sido uma morte, um desligar completo dos sistemas. Muito provavelmente minha glicemia zerou eu apaguei para valer. Uma sensação bem diferente das minhas 4 pré-comas glicêmicas, quando meu corpo inteiro entrou em cãibra, um terror principalmente para quem vê. O fato é que no dia seguinte,voltando da faculdade, parei na frente de um jardim e descobri que a vida para valer era outra, e a partir daí comecei a ver minha felicidade de frente. A outra experiência mais forte foi num Cactus Cup, prova que sempre foi meu sonho chegar bem, ir para o pódio. Larguei mal, estava com a bicicleta errada para o circuito, e quando vi estava muito atrás, lá nos “úrtimo”. Na subida forcei demais e quando chegou na descida não dei um tempo para acalmar, o que resultou num desmaio em cima da bicicleta que só não resultou em chão porque raspei com a lateral no barranco e voltei uns metros depois. Ainda dei um grito com o cara que estava na minha frente, passei e ai caiu a ficha que aquilo ali era simplesmente uma prova esportiva e não uma batalha real de guerra. O peso da besteirada toda foi pesado, mas muito educativo.
Vira e mexe recebo a notícia que alguém que conheço foi atropelado ou sofreu algum acidente com sua bicicleta. Não consigo entender. Não sei se minha auto-cobrança me manteve distante dos acidentes ou se tive muita sorte. Provavelmente os dois. Tenho certeza que disciplina técnica na condução da bicicleta faz muita diferença na segurança no trânsito. Ai sim se acontece alguma coisa errada o erro é (em 95% dos casos) meu. É dado estatístico, científico e ponto final. Não dá para ficar nem no “Oh vida!, Oh dia!...”; nem no sempre passar a responsabilidade para os outros. E no meio destas disciplinas de pilotagem tem que saber usar o botão “FODA-SE!” – e saber usá-lo com bom senso e sabedoria, do contrário quem se fode é você próprio. Não tenho a menor dúvida que a pior coisa para quem pedala na rua é brigar com o trânsito. Daí minha distância da Bicicletada. Para mim a bicicletada deveria ser da paz, simpatia, do agregar e da boa vida.
Durante uns três dias fiquei tentando mandar as respostas de mensagens da Escola de Bicicleta sem sucesso. Não saía do computador. Tenta, tenta e nada. Valéria acabou vindo aqui e depois de muito olhar percebeu que um endereço tinha uma vírgula no lugar do ponto. “Pode ser isto” disse e foi ai que olhei os outros endereços e vi que praticamente todos estavam errados. Resultado da transferência dos endereços do velho computador para o novo. Ou melhor, foi um problema de “Vista”, não a minha, mas aquele maravilhoso programa da Microsoft que, dizem os teóricos do complô, foi criado nos Estados Unidos; mas todos sabemos que foi criado no Centro de Estudos Avançados de Softers da Coréia do Norte, que usava então os fantásticos computadores HP 6615br, iguais aos que acabo de me livrar, a pedido de um padre exorcista.
Há momentos ou coisas que acontecem na vida da gente que simplesmente não temos como controlar. Faz parte do jogo. Com alguns ficamos neuróticos, com outros simplesmente desligamos, ou seja, metemos uma porrada tão forte no “FODA-SE!” que ele emperra para aquela situação. Procurar ver a própria balança e buscar seu melhor equilíbrio torna-se então crucial. E que não se engane que conseguimos o feito do equilíbrio, da maturidade, num piscar de olhos. Tudo se consegue um passo por vez. E dependendo do desequilíbrio o passo deve ser maior ou menor, mais rápido ou mais lento, mais suave ou pisado... A vida não é fácil e ai está justamente a graça dela.
Vamos lá que não vai fazer muito sentido mesmo, mesmo assim vamos lá:
Do texto antigo:
2009 foi um ano magnífico para mim e para a Escola de Bicicleta, provavelmente o melhor de sua história. Ai veio 2010, ano dos meus 55 anos, grandes esperanças, festas, etc e tal. Ups! Não está sendo bem assim.
A verdade é que de fato neste final de 2010 ainda acho que está sendo um dos anos mais estranhos de minha vida. O primeiro semestre, quando escrevi este lamento que aqui está postado em itálico, foi uma loucura porque praticamente não pintou trabalho e mesmo assim não parei de trabalhar um segundo. O segundo semestre acabou entrando um ótimo trabalho, que no devido tempo conto, e virando a maré de uma falência trabalhosa para uma trabalheira quase que monetariamente compensadora, mas como experiência de vida e aprendizado maravilhosos, exaustivos, mas maravilhosos.
Por onde começar as lamentações? Certamente lembrando o personagem de Hanna Barbera, Hardy, a hiena, que lamentava absolutamente tudo com a frase “Oh dia, oh azar...” . Sem dúvida faz muito tempo que não tenho tempos tão tumultuados tão demorados, como o direito a repetir “tão” tantas vezes. “Tão tantas” dá boa letra de rock pauleira, Aliás, tão e tantas quantas eu bem entender!, digo para mim mesmo, ou será para eu mesmo. Par ou impar. Não precisa, fico com a última hipótese. Ninguém tem nada a ver com meu mau humor e minhas mazelas. Mas me guardo o direito: “Oh dia, oh vida...”
Um dia, sentado à mesa com uma tia, Maria Elena, sem “h”, falava eu sobre minha diabete e ela mandou de bica um “Você está ficando hipocondríaco”. Boas verdades não deviriam doer porque é o que de mais honesto se pode fazer com quem se respeita. Pelo menos consigo próprio, já que algumas vezes não dá para agüentar tanta choradeira. E ali percebi que deveria mudar de canal. E mudei. Aquele comentário acabou sendo marco de vida.
Dos bons momentos de minha família, quando minha mãe ainda vivia, era quando meu irmão, coração de ouro, mas mal humorado de nascença para algumas coisas simples e bestas, ficava tão mal humorado que disparava a rir sobre seu próprio mal humor. Numa das feitas chegamos a ter que levantar da mesa de tanto rir da situação. Aliás eu e minha mãe rolamos no chão às gargalhadas – literalmente. Não me lembro bem sobre o que se tratava, mas com certeza era fato insignificante na vida de qualquer ser normal, o que meu irmão não é muito, e que para ele era um drama. Até hoje não usa computador por que o marcador de posição de digitação fica piscando sem parar. “Não dá para parar esta merda. Assim é impossível”rosna alto ele. Não adianta argumentar que sem a marcação não haverá forma de saber onde você está no texto. Ele é da geração que se fez em máquina de escrever mecânica, tornou-se livre docente e publicou alguns livros, e nunca precisou de “uma coisa enervante piscando”. Tem cacife intelectual para que os que o cercam digitem seus trabalhos. Aliás, não entrega o trabalho sem acertar pagamento. O cômico é que digita maquina mecânica sem olhar para o teclado, e o faz rápido.
Ter consciência de seus próprios defeitos é quase uma arte. Acredito que olhar os próprios defeitos, erros ou deslizes, é o melhor caminho para o crescimento, para o amadurecimento. Alguns a gente não corrige. Talvez eu tenha me apropriado do ditado “não jogue para os outros seus próprios erros” com um pouco demais de ortodoxia. Pouco demais é uma expressão ótima, tipicamente brasileira, bem em cima do muro. Enfim, parto do princípio que se houve alguma coisa errada na qual estava de alguma forma envolvido provavelmente eu tenho uma parte de responsabilidade ou poderia ter feito diferente e ter chegado a um outro resultado. O que é de fato verdade, mas qual é o ponto de equilíbrio para minhas próprias cobranças? Amadurecer a que custo? Chego a esta altura do campeonato consciente que se o custo for muito alto a maturidade não vem. É óbvio que chutando todos paus da barraca também não. O ponto de equilíbrio está num botão vermelho bem grande e visível que fica no meio do painel de controle de nossas vidas, de cada uma delas, onde se lê “FODA-SE!”, mas quem de nós sabe usá-lo com sabedoria?
Quando tinha uns 20 anos eu dei uma exagerada na festa e tive o que parece ter sido uma morte, um desligar completo dos sistemas. Muito provavelmente minha glicemia zerou eu apaguei para valer. Uma sensação bem diferente das minhas 4 pré-comas glicêmicas, quando meu corpo inteiro entrou em cãibra, um terror principalmente para quem vê. O fato é que no dia seguinte,voltando da faculdade, parei na frente de um jardim e descobri que a vida para valer era outra, e a partir daí comecei a ver minha felicidade de frente. A outra experiência mais forte foi num Cactus Cup, prova que sempre foi meu sonho chegar bem, ir para o pódio. Larguei mal, estava com a bicicleta errada para o circuito, e quando vi estava muito atrás, lá nos “úrtimo”. Na subida forcei demais e quando chegou na descida não dei um tempo para acalmar, o que resultou num desmaio em cima da bicicleta que só não resultou em chão porque raspei com a lateral no barranco e voltei uns metros depois. Ainda dei um grito com o cara que estava na minha frente, passei e ai caiu a ficha que aquilo ali era simplesmente uma prova esportiva e não uma batalha real de guerra. O peso da besteirada toda foi pesado, mas muito educativo.
Vira e mexe recebo a notícia que alguém que conheço foi atropelado ou sofreu algum acidente com sua bicicleta. Não consigo entender. Não sei se minha auto-cobrança me manteve distante dos acidentes ou se tive muita sorte. Provavelmente os dois. Tenho certeza que disciplina técnica na condução da bicicleta faz muita diferença na segurança no trânsito. Ai sim se acontece alguma coisa errada o erro é (em 95% dos casos) meu. É dado estatístico, científico e ponto final. Não dá para ficar nem no “Oh vida!, Oh dia!...”; nem no sempre passar a responsabilidade para os outros. E no meio destas disciplinas de pilotagem tem que saber usar o botão “FODA-SE!” – e saber usá-lo com bom senso e sabedoria, do contrário quem se fode é você próprio. Não tenho a menor dúvida que a pior coisa para quem pedala na rua é brigar com o trânsito. Daí minha distância da Bicicletada. Para mim a bicicletada deveria ser da paz, simpatia, do agregar e da boa vida.
Durante uns três dias fiquei tentando mandar as respostas de mensagens da Escola de Bicicleta sem sucesso. Não saía do computador. Tenta, tenta e nada. Valéria acabou vindo aqui e depois de muito olhar percebeu que um endereço tinha uma vírgula no lugar do ponto. “Pode ser isto” disse e foi ai que olhei os outros endereços e vi que praticamente todos estavam errados. Resultado da transferência dos endereços do velho computador para o novo. Ou melhor, foi um problema de “Vista”, não a minha, mas aquele maravilhoso programa da Microsoft que, dizem os teóricos do complô, foi criado nos Estados Unidos; mas todos sabemos que foi criado no Centro de Estudos Avançados de Softers da Coréia do Norte, que usava então os fantásticos computadores HP 6615br, iguais aos que acabo de me livrar, a pedido de um padre exorcista.
Há momentos ou coisas que acontecem na vida da gente que simplesmente não temos como controlar. Faz parte do jogo. Com alguns ficamos neuróticos, com outros simplesmente desligamos, ou seja, metemos uma porrada tão forte no “FODA-SE!” que ele emperra para aquela situação. Procurar ver a própria balança e buscar seu melhor equilíbrio torna-se então crucial. E que não se engane que conseguimos o feito do equilíbrio, da maturidade, num piscar de olhos. Tudo se consegue um passo por vez. E dependendo do desequilíbrio o passo deve ser maior ou menor, mais rápido ou mais lento, mais suave ou pisado... A vida não é fácil e ai está justamente a graça dela.
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