quarta-feira, 22 de abril de 2026

Mata a véia!

"Mata a véia!", dependendo de quem ou porque diz, também pode ser "Não mata a véia não"; sem exclamação.

Algo cai no chão e de bate pronto alguém solta um "Tá vivo. Mata, mata, mata!", e todos riem.

"Morre, morreu, antes ele do que eu", esta acho que não precisa comentários.

Meu cunhado, um piadista incontível, entrou em casa, e para minha mãe começou com uma das suas, "Sogra boa tem que ser como cerveja". Ela, rindo, sabia que vinha besteira da grossa, então pediu, "Vamos, termina", e ele disparou "Gelada e em cima da mesa". A gargalhada foi geral e incontida, inclusive de minha mãe.

Tem a politicamente incorreta, o sempre repetido "Bandido bom é bandido morto". Ditado burro digo eu, porque bandido bom é aquele vivinho da silva que dá com a língua nos dentes, traduzindo para a geração mais nova, dedura, entrega tudo, fornece informações para que outros entrem em cana.

E por aí vamos, mata tudo e todos. Não sobraria ninguém, nem nada. Tudo morto. Sobrariam risadas?

Numa sessão de cinema, os trailers foram todos um banho de sangue, contos de terror, assassinatos, lutas cheias de mortos. Isto antes do filme 'Drama', uma mistura de drama e suspense que tem como ponto de apoio para o seu roteiro uma ação violenta que não se realiza. Tudo gira em torno do quis matar, mas não matou, e da consequente reação coletiva a notícia. O que o banho de sangue dos trailers têm a ver com o filme não faço ideia, mas "mata!", da forma que for, porque é rentável, mui rentável, dindin. 
Nos filmes é ketchup, mas traduzindo, traz o desejo real e profundo da plateia: ver sangue quente jorrando. Se fosse sangue para valer, o de verdade, ia ter um bocado da plateia histérica e vomitando.

Faz um bom tempo Antônio Penteado Mendonça soltou num Crônicas da Cidade da Rádio Eldorado, um texto sobre como resolver a bagunça no legislativo: soltar algumas onças pardas esfomeadas no plenário e trancar as portas. (Enquanto escrevo isto dou risada). Como piada, como delírio libertador (?!?), funciona.

Voltando a coisa séria, que dá vontade, isto dá, mas resolve? Vontade do que? "Eu mato, eu pico, eu ponho no pinico", me dizia minha irmã quando ficava brava com minhas travessuras. 
Bem..., não, a história diz que não, que via de regra piora a situação. Gandhi e Mandela mostraram um caminho muito mais tranquilo, que não resolveu tudo, mas foi bom porque não deixou ou criou ressentimentos duradouros e perigosos.

Um dos mais brutais momentos de revanche, é a história de Vlad II, que ficou conhecido como o Empalador, ou Draculea, ou Conde Dracula (~ 1448) em suas inúmeras versões de grande sucesso. Empalador? Empalar é uma das técnicas de tortura e assassinato mais brutais já praticadas, transpassar um corpo com uma estaca. Não dou mais detalhes porque realmente é de revirar o estômago. Vlad II fez uma floresta de empalados, uns 5 mil, em vingança ao assassinato de sua amada mulher. No cinema, ou na imaginação do povo, um Dracula bem mais romantizado faz sucesso, mas Vlad II faria o mesmo sucesso na vida real?

Está claro que a humanidade quer dar um basta ao que incomoda. Vide os malucos que estão por aí em todas partes. Eu concordo em grau, gênero e número que o que temos hoje não está funcionando para grande parte do povo, mas daí partirmos para um banho de sangue banalizado é uma outra história.  
Incomodar é uma coisa, estar errado é outra. Estamos fazendo uma tremenda confusão aí. Segundo historiadores, nunca na história da humanidade os incômodos foram tão poucos, mesmo para os que tem maiores dificuldades.
Errar é humano,  as concordo que deve haver limites, e tem gente indo muito além, mas muito além...
Banalizar a morte, como está acontecendo aqui, é inaceitável. Como sabem que dificilmente serão pegos, então matam, fácil assim. É o viés inaceitável do "tá vivo? então mata!", aqui não falo sobre politicamente correto, mas o asquerosamente inaceitável.

Queremos soluções fáceis e rápidas. Mata! Será? Qual a dos filmes? De nossa imaginação fértil?
Uma coisa é certa: até ketchup espirada na blusa do outro cria confusão.

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