quarta-feira, 1 de abril de 2026

As janelas do outro edifício

A geração atual não sabe nada. Não faz ideia da emoção que era, quando criança e adolescente jovem, aliás, deve ter tido muito adulto fazendo o mesmo, olhar pelo buraco da fechadura. Já faz muito que as fechaduras são apertadinhas, que fecharam o buraco vazado e não dá para ver mais nada. As velhas fechaduras é que eram divertidas! Permitiam um olhar curioso, meio criminal, um tanto imoral, definitivamente politicamente incorreto, mas ótimas para tentar ver detalhes. Mal trancavam o que quer que fosse, a porta ou o olho. Qualquer um com um pouquinho de jeito conseguia destrancá-las, ou ver, quando via. Hoje, qual seria o grande crime, a diversão do olhar indiscreto ou o abrir e invadir? Não tenho dúvidas, abrir, invadir, roubar é muito menos criminal. Olhar? Nem pensar! Você pode ser linchado socialmente.

E tem a janela do apartamento escancarada. Aí, desculpem, é  inevitável.

No apartamento em frente, janela com janela, um andar abaixo, a linda menina insistia em ficar nua. Começo de noite, fui fechar a cortina e dei com ela, no auge de seus 20 e poucos anos, tudo em cima, curvas perfeitas, pele lisa, olhar perdido, parada, quieta no meio do quarto. Alguma coisa está errada com ela, impossível que não tivesse ouvido o barulho da minha cortina sendo fechada. Ela está completamente absorta em seus pensamentos, pela expressão, em algum problema sério. Parei antes de fechar a cortina por completo, primeiro pelo susto de vê-la daquele jeito, não só nua, depois por curiosidade, e finalmente por prazer, não um prazer sexual, mas pela beleza real como de uma pintura renascentista, semi deusa dando o toque de leveza que conta numa boa pintura. Perfeita, mas de olhar introspectivo, triste, fechado em si. Terminei de fechar a cortina, me preparei para sair, fechar janelas, outras cortinas, pegar as sacolas, calçar os sapatos para ir ao supermercado, e desci. De volta do supermercado passo por ela caminhando, o mesmo olhar introspectivo, triste, fechado, vestida como se quisesse esconder seu próprio corpo. Estranho. 

Da sala vejo o gordo com barriga de fora vendo TV, programa horroroso, sentado próximo de sua mãe, senhora muito idosa, doente, que já não sai de casa. Faz muito calor, mesmo neste tarde da noite, janela escancarada, vejo o ventilador ligado ventando para a velha senhora pernas esticadas sobre um puff, poucas roupas. O gordo é um figura simpática, gosta de puxar conversa quando encontra alguém no térreo. Nunca vi o rosto de sua mãe, sempre com o corpo exposto ao vento da janela aberta e ao ventilador, e sempre com a cabeça escondida pela parede.

Vizinhos novos no apartamento de frente. Muito discretos, meia janela aberta, raramente os vê circular. Se a menina nua ficava um andar abaixo, o gordo dois abaixo e mais para a direita, os novos vizinhos estão cara a cara, mesmo andar, frente a frente. Já peguei um fantasma ali olhando meus movimentos. Curiosidade matou o gato, diz o ditado, todo mundo olha. O máximo que vi foi alguém se maquiando no espelho. Não faço ideia de que cara tem.

Na primeira noite neste apartamento, o das janelas, ainda sem qualquer móvel, vou receber amanhã bem cedo o cara que vai instalar a Internet. Vou dormir no chão da sala, no sleeping bag. Me ajeito, começo a relaxar e começam os sons inconfundíveis de uma maravilhosa trepada. A mulher está sendo muito bem tratada, está se divertindo, geme com muito prazer e alto. Dou risada. Me levanto e vou até a janela. Nada. Deve ser num andar de baixo. A coisa fica cada vez mais quente, no meio de um dos orgasmos ouve-se um urro "Cala a boca, sua puta!", seguida de algumas gargalhadas e da resposta da que goza, rindo: "Cala a boca você. Mulher mal comida é uma merda!". Breve silêncio geral. E a função recomeça, agora com o casal reforçando o espetáculo.

Indecente mesmo é o maravilhoso cheiro de comida deliciosa que sai de alguns apartamentos. Aí dá vontade de arrombar a porta e invadir a cozinha. O aroma da carne de panela que sobe é torturante. Não poder colocar a colher naquela comida é difícil de aceitar. Fazer o que?


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