terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Santa Maria!

Marcelo Rezende, Cidade Alerta, com sua voz grossa, um tanto rouca, acostumado à barbárie, fez um dos textos mais emocionados, brutal, quando contou que depois que os corpos foram colocados no chão do ginásio os celulares dos mortos não pararam de tocar, numa sinfonia enlouquecedora. As autoridades presentes não podiam atender e tiveram que aguentar aquele contínuo tocar de campainhas e musiquinhas vindas do inferno de uma festa de boate.

Ainda não se sabe ao certo quantos morreram, mas mais de 231. Não há número final até porque muitos ainda vão morrer em consequência de queimaduras e problemas respiratórios. Neste caso vão contar todos mortos, incluindo os que vieram a óbito até 3 meses depois, o que normalmente não se faz.
A comoção é geral. Gaúcho não está acostumado a isto; não tem prática com morte fácil e banal. Ontem saíram em passeata nas ruas de Santa Maria 30 mil pessoas. Número impressionante para uma cidade que tem 300 mil habitantes. Dez por cento! Dez por cento.

Dizem que agora a coisa vai mudar. Dizem que vão colocar os responsáveis na cadeia. Quem, por quanto tempo? Será justo? Será abrangente? Vão pegar os mais óbvios por que disto não podem escapar.  Não há forma técnica judicial para desmanchar a teia criminosa completa. Todos são culpados e todos nós somos culpados por omissão. Não temos ferramentas para uma investigação de qualidade. Nós assim queremos por que passivamente aceitamos. “País de bananas!” alguém soltou na TV.
No meio de toda esta tragédia, um pouco mais de 230 mortos e mais uma centena de feridos, deve ter autoridade que está dando graças a Deus pelo desvio das notícias para um único foco. Afinal, como disse outro dia Alexandre Garcia no Bom dia Brasil, são 90 mil / ano vítimas de morte violenta, ou seja, mais de 240 mortos / dia. Faça as contas: quantos dias se passaram do incêndio de Santa Maria ocorrido no dia 27 de Janeiro de 2013? Agora multiplica por 240 e você terá o resultado.

Dilma fez um discurso que, segundo jornais (não ouvi, nem li), divide o Brasil entre nós e eles. Não é primeira vez que isto acontece no PT. Lula fez a mesma coisa. Meu pai, loiro de olhos azuis, é um dos inimigos deste país, segundo Lula. Eu tenho perfil europeu, portanto devo ser também, mesmo com as raízes que tenho. Resta saber quem eram os estudantes da boate de Santa Maria. São diferentes da população de Petrópolis, Teresópolis, Xerém... , das famílias e estruturas sociais destroçadas homeopaticamente por assassinatos e acidentes de trânsito.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Comer bem

           Semana passada tive que ir a dois novos restaurantes ditos chiques e novos aqui nos Jardins, região nobre de São Paulo. O preço por pessoa não nega: R$ 75,00, sem couvert, entrada ou qualquer bebida especial. São, de fato, ditos chiques, seja lá o que hoje em dia signifique isto. Prato principal, um suco num, uma cerveja long neck noutro, e uma sobremesa para dois nos dois restaurantes; nada além, exceto o preço, R$ 75,00. Os dois restaurantes, novos, bem decorados, organizados e bem servidos, bem ao gosto da nossa classe emergente em sua busca quase desesperada de ser chique.

Mas... e gosto, o sabor, a qualidade da comida? Ao final das contas é o que realmente vale. Ou não?

                No primeiro comi um gnochi trufado, que se não me engano custou R$ 46,00 o prato. Estava bom, servido (ou perdido) num lindo imenso prato fundo decorado, mas horas mais tarde continuava me acompanhando. No segundo um bacalhau, R$ 51,00, que não estava tão bom e horas depois também me fazia companhia, não o bacalhau, mas o excesso de azeite. Tenho companhias melhores para passar à tarde comigo, que além de tudo e felizmente não me doem no bolso.

Restaurantes como o quilo barato (R$ 25,00/quilo) da Sandra, do Estação Pinheiros, visinha de minha casa, tem vários sabores maravilhosos, como por exemplo a salada de berinjela miudinha ou a acelga com gengibre e pimentão picadinho; e o quilo do Gustavinho, República Gastronômica, um pouco mais caro, mas também de excelente sabor geral, principalmente no dia “árabe” (quinta-feira, creio), são bom exemplo que comer é uma coisa, pagar por frescura é outra.

Saber cozinhar para valer é um dom para poucos, bem poucos. Outros se tornam bons porque se auto disciplinam e se auto educam para o bom sabor. Trabalham sua própria sensibilidade. Entendem a importância de seguir passos, respeitar regras, dentre elas saber degustar. O desenho animado Ratatouille descreve genialmente o que digo.

O fato é que boa parte destes chefes que ai estão servem os próprios egos. A cultura de paladar que tem provavelmente é precária ou viciada. Quantos deles tiveram a possibilidade de comer a comidinha caseira. Dos poucos que tiveram esta oportunidade, quantas famílias tiveram acesso a ingredientes bons, a tranquilidade para cozinhar, a tempo para servir bem, degustar em paz?

O pior mesmo é o público que se sente feliz em ser enganado. Esta é o pior de toda esta história.


 
Em Alachati, no Mar Egeu, Turquia, provei um dos melhores restaurantes de minha vida. Quatro mulheres simples tocam o negócio que tem zero de engana bobo. É uma porta numa casa pequena, simples, com uma mesa grande no meio da sala onde ficam os mais de 10 acompanhamentos para o carneiro ao alho e arlequim que fica no forno. Pedi todos acompanhamentos, feitos de legumes e verdes, e comemos numa das mesinhas na rua. Simplesmente prefeito. Suave, leve, com cada gosto bem definido, misturas equilibradas, tempo de cozimento exato. Perfeito. Gostaria de ter dinheiro para um dia voltar. Vale a pena. Como gostaria de voltar a comer o ovo estalado do Salumeria Rose de NY (Amsterdam próximo à Broadway). Custa, mas vale cada centavo. E tantos mais. Mas gastar dinheiro com estes pseudo chefes daqui não dá, definitivamente não dá.

Numa das vezes que fui para Buenos Aires em ônibus, no meio do nada da Província de Entre Rios e perto da hora do almoço, o motorista parou no acostamento e perguntou aos passageiros se queríamos desviar da rota para comer a melhor milanesa da Argentina. Aceitamos e de fato comemos milanesas com salada colhida no quintal (alface, rúcula, tomate e muita cebola, bem picados e temperados na terrina) que estava divino. O motorista sumiu. Reapareceu com aquela cara indisfarçável de quem tinha dado uma ótima trepada com a dona do pequeno restaurante no meio do nada. Milanesas inesquecíveis!

Minha mãe, que adorava cozinhar, estudava o assunto e criava pratos maravilhosos, fazia um suflê de polenta perfeito que mesmo respeitados chefes não conseguem repetir. Meu pai está aposentado e hoje se dedica aos maravilhosos jantares de terça-feira. O bouef bourguignon dele, resultado de praticamente 24 horas de forno e fogão, é insuperável aqui ou mesmo na França. Infelizmente nunca mais vou comer a perfeita batata palha feita na hora na casa de tia Nene, a torta pasqualina da querida Maria, as milanesas perfeitas com salada de Yaya, o almoço de Natal dos deuses de Dona Marta Falzoni (mostarda de Cremona, creme de trufas, talharins, pudim de alcachofras, mouse de chocolate amargo), o arroz seco e solto, o feijão preto e a couve milimétrica suavemente passada no alho de Mariazinha, os pasteizinhos de queijo delicados de (tia) Milão, o bolo de nozes quebradas na hora de minha irmã, a geleia de mexerica do rio feita em família, as sopas de resto de Silvia... Posso dizer que tenho uma boa base de cultura culinária.

 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Cornowagen Brasil




Começo esta com o Corno Wagen, ou Cornowagen, como queiram. Pois bem, a Volkswagem do Brasil lançou em 1965 uma grande novidade, ideal para o tempo quente e ensolarado deste país tropical: Fusca com teto solar. Não demorou nada e logo o carrinho foi apelidado de “corno wagen”, provavelmente por algum pasquim de bêbados metidos a inteligentes, enrustidamente temidos e invejados. E assim as vendas simplesmente acabaram. Primeira definição do que somos, brasileiros.
Carro preto sempre foi símbolo de carro de poder, nem sempre muito honesto. Vide filmes de gangsteres e máfia, donos pouco corretos do poder, ditadores; enfim, de gente que não se pode definir como sendo exatamente “do bem”. Segunda definição do Brasil: a cor mais vendida neste país campeão de injustiças sociais foi durante décadas (e talvez continue sendo) o preto. Muito sensato, principalmente quando usado debaixo do discreto sol que nos abençoa. Terá este fato qualquer relação sociológica com nossa tranquila aceitação da epidemia criminal que nos assola?

Definição de Brasil terceira: num Bom dia Brasil, creio que do dia 02 de Janeiro passado, foi dito que o pessoal que voltava do Litoral Sul de São Paulo para a Capital e Região Metropolitana chegou a fazer a viagem de carro em 12 horas. A notícia não foi mais repetida neste termo por que as 12 horas foram abatidas para só 6 horas de viajem. Melhorou muito, principalmente numa estrada que simplesmente não tem postos de serviço. Fiz a viajem outro dia em aproximadamente uma hora e meia. Socialismo que nunca antes... Isto tudo tirando fora o altíssimo índice de inadimplência dos zero sem IPI e os pátios onde não entram os mais de 200 mil veículos apreendidos...
Acelera Brasil! Pé na tábua e fé em Deus.
Feliz Ano eternamente Novo, Brasil 2013

(Fica a recomendação para a leitura do “Pé na tábua e fé em Deus” do Antropólogo Roberto Damatta. o qual ainda não li, mas está na fila)

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Rota Márcia Prado 2012 - outra história


 
Domingo fiz os 100 km de pedal da Rota Márcia Prado, a descida de São Paulo para Santos pela via Grajau, Bororé, estrada de manutenção da Imigrantes, Bairros Cota e Cubatão. Novamente adorei. Sai às 6:08 h da Ponte Cidade Universitária, praticamente uma hora antes da largada oficial, que aconteceu na entrada Vila Olímpia da Ciclovia Pinheiros, já havia uma massa de ciclistas circulando e pegando o trem da CPTM para Grajau, o segundo ponto de partida. A largada oficial foi dada às 7:00 h na patética entrada Vila Olímpia da Ciclovia Pinheiros, que virou um festivo caos.

Mais de 7.200 inscritos pela Internet, na CicloBr.org.br, já é uma quantidade de ciclistas notável; mas a divulgação boca a boca apontava para números que chegaram a assustar. Quantos iriam? 10.000? mais? Ninguém sabe ao certo quantos foram, mas mesmo com um tempo esquisito e chuvoso a conta fecha para lá dos 8.000.

Eu cruzei a primeira balsa, de Bororé, em uns 30 minutos, se tanto, mas teve gente que demorou 4 horas para cruzar. Quando cheguei na Imigrantes, lá pelas 11:00 h, conversei com os Policiais Rodoviários, que afirmaram que naquele momento já tinha passado muito mais gente que no ano passado. Vale a pena ver as fotos do Willian Cruz no Facebook, que fez o fechamento do passeio e comparar com as minhas, do início. Fácil entender o tamanho da brincadeira: exatamente às 19:30h, quando passamos a Serra do Mar de volta para São Paulo ainda tinha muita gente pedalando na estrada de manutenção. Simples.

Pessoalmente gostaria de ver o circo pegando fogo. Com a Ciclo Faixa de Domingo e outras iniciativas abriram a caixa de pandora da diversão e hoje tem muita gente que sabe que consegue pedalar com facilidade até grandes distâncias. Perderam o medo e descobriram que “fazer loucuras” não tem nada de loucura, de sair por ai de bicicleta, muito perlo contrário, é muito bom para a alma e não em preço. Se não acabou a mentira de que “bicicleta não existe” ou “é perigosa”, deu-se um salto imenso no sentido contrário.

Um passeio destes destrói paradigmas negativos sobre a bicicleta e cria demandas que deveriam ter sido resolvidas a muito pelo poder público, o que obviamente também não será atendido amanha nem depois de amanha. Sabe lá Deus quando a absurda lentidão da coisa pública conseguirá fazer sua parte e quais serão as consequências. Se com chuva juntou esta massa para a aventura e diminuiu sensivelmente o número de ciclistas na Ciclo Faixa de Domingo, imagine se tivesse feito tempo legal... Se o evento mais que dobrou do ano passado, o que acontecerá nos próximos anos? Pior, o pessoal que experimentou e gostou provavelmente não vai mais ficar sujeito à programação oficial dos fins de semana e, pior ainda, vai ‘incitar’ os novatos. Situação deliciosamente perigosa.  

Como já disse, quem organizou foi a CicloBr.org.br, que fez um ótimo trabalho, principalmente em se tratando de voluntariado. Que inveja eu tenho desta nova geração de ciclo-ativistas... Houveram pouquíssimos incidentes e acidentes, principalmente dadas as condições.

Prefeitura de São Paulo e Governo do Estado deveriam estar mais atentos e presentes. Não cabe mais não vi para não me responsabilizar. É lógico que Guarda Florestal, PM, Polícia Rodoviária estavam lá e fizeram um ótimo trabalho, mas a dimensão do que aconteceu, e todo mundo sabia que iria acontecer, demanda muito mais. Por exemplo: não dá mais para negar que os ciclistas descem o ano inteiro pela estrada de manutenção, portanto é ridículo não sinaliza-la oficialmente, principalmente no dia do evento. Enfim, a burrice está nos estertores finais da negação da existência da bicicleta e ciclistas, que existiam muito antes destes eventos e daqui para frente tende a existir muito mais. Ser burro é uma coisa; agora ser burro, estúpido, cego, surdo e  mudo é outra (sem ofensa aos burros, que são quadrupedes bem inteligentes).

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Rota Márcia Prado 2012

Eu sai da Ponte Cidade Universitária às 6h08m para evitar o tumulto que vei atrás, dai aparente pequeno de ciclistas na Rota Márcia Prado. Mesmo assim, quando cheguei na Rodovia dos Imigrantes os policiais rodoviários já diziam que tinha muito mais ciclista que no ano passado.
É um passeio maravilhoso, obrigatório, um espécie de rito de passagem para quem pedala.


Primeira balsa: eu ainda passei rápido. Quem chegou depois enfrentou uma espera cada vez maior, que acabou chegando a 4 horas.


Primeira balsa


Da primeira balsa, deixando São Paulo para trás


Estrada de Bororé: entre balsas

Saída da segunda balsa

Rodovia congestionada para os carros e com um policiamento amigável para as bicicletas...

apesar dos absurdos cometidos por vários ciclistas que vieram pedalando pela rodovia

Alça de ligação Imigrantes - Anchieta

passando por baixo da Imigrantes, com névoa e piso bem escorregadio

Chegada no posto de fiscalização antes de iniciar a descida da estrada de manutenção.

Lá em baixo é possível ver a fila para conferir a inscrição e checar a bicicleta, tudo feito com calma, ordem e muita educação do pessoal da CicloBr. As notas erradas foram tocadas por uns raros ciclistas que se sentem melhores que os outros. Pobres infelizes...

Nunca mostro minha cara, mas vale como exemplo que como estava o espírito geral do povo

Vistas maravilhosas é o que não falta. Isto ajuda a segurar o pessoal e fazê-los descer mais devagar. O piso estava realmente muito escorregadio, até dentro da "faixa de segurança", o meio da estradinha

O barato é sentir que você está completamente livre e se divertindo uma barbaridade e lá em cima o trânsito está quase parado, cheio de mal humorados...

Uma das cachoeiras e ponto de culto de umbanda, infelizmente muito descuidado.



Já em Cubatão, pedalando no pé da serra. Este é o canal que traz as águas da Usina Henry Borden, que fica no topo da serra, na Represa Billings

Petrobras, que de automóvel se vê ao pé da Serra do Mar, entre a Anchieta e a Estrada Velha

o mesmo da anterior, mas voltado para a Anchieta.
E a partir daqui a máquina não aguentou a chuva e parou de funcionar...

Sai exatamente às 6h08m e cheguei em Santos às 14h00m, como já disse, com um poucos (?) ciclistas descendo (só alguns milhares). No dia anterior tive medo de não conseguir terminar ou chegar moído. Muitíssimo pelo contrário. O entusiasmo leva a gente para frente. Hoje continuo ótimo, no alto de meus 57. Se o veínho foi...

Infelizmente soube, a confirmar, do tombo de meu amigo Ton (a esqueda da foto "Da primeira balsa, deixando São Paulo para trás" com capacete azul, no fundo da balsa) que 'parece' acabou quebrando as mãos. Melhoras, meu caro. Houveram muitos outros tombos, normais numa situação daquelas. Foi avisado pela organização antes e na hora do controle. Há alguma sinalização e nos pontos críticos estava alguém da organização sinalizando. Tem que ser complementada e oficializada. Não dá mais para negar os ciclistas que passam por ali o ano todo.
Infelizmente houveram bicicletas roubadas, umas poucas, apesar dos PMs circulando por lá. Infelizmente, neste Brasil do nunca antes, é uma situação que é dificílima de controlar; até por que de repente consideram politicamente incorreto evitar esta distribuição de renda ciclística...

Obrigado a Polícia Rodoviária, PM e Polícia Florestal pela presença e ajuda. Em um outro texto comento melhor

Parabéns ao CicloBr pelo belíssimo trabalho de organização. Parabéns mesmo
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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

falar, repetir, repetir... sem eco

Passei pelo menos uns 20 anos batendo de frente com todo mundo aqui no Brasil porque sai afirmando que ciclovia não trás segurança total para o ciclista. Repetindo sempre o mesmo discurso: simples, não existe ciclovia sem cruzamentos e a maioria dos acidentes ocorre justamente nos cruzamentos. Isolar completamente o ciclista do trânsito motorizado, o que é absolutamente impossível, não é recomendável porque faz o ciclista invisível para o trânsito motorizado. O questionamento sobre a segurança de pedalar em ciclovia não para por ai.

No fim de uma de minhas palestras veio um holandês elogiar minhas críticas e fazer uma correção: “Você esqueceu uma coisa”. E fez uma breve pausa. “Acontecem muito acidentes (colisões) entre ciclistas que circulam na ciclovia”. Alguns acidentes entre ciclistas são mais graves que colisão contra um automóvel que esteja na mesma velocidade de uma bicicleta. Carros tem a frente projetada para reduzir ferimentos em pedestres e ciclistas, enquanto uma bicicleta é pontiaguda, o que machuca muito no caso de colisão, principalmente frontal.
O que propunha na época era a construção de um sistema cicloviário completo, que incluísse toda e qualquer opção que pudesse realmente dar segurança e conforto para o ciclista. O centro da ideia era tirar os ciclistas das vias e cruzamentos mais perigosos e fazê-los descobrir o bairro, as alternativas, os caminhos não motorizados, o prazer de pedalar numa dinâmica de espaço e tempo completamente diferente da sociedade do automóvel. Difícil!

Provavelmente a forma de meu discurso também atrapalhou. “Quem não se comunica se trumbica” já dizia Chacrinha, um dos melhores apresentadores da história da TV brasileira. Passar o recado completo e inequívoco é comunicar-se. O resto é soltar o verbo. Ser direto, claro e sem rodeios. Infelizmente não é exatamente meu estilo. Mesmo assim... dava para entender.
Enfim, mais de 30 anos repetindo a mesma coisa praticamente sem qualquer eco. Nunca houve grande novidade em minhas palavras. Eram fáceis de comprovar. Eu simplesmente li textos e documentos internacionais, pensei um pouco e fiz algumas adaptações baseadas na cultura brasileira. Mesmo que minha comunicação tenha sido errada, o que espanta é falta de curiosidade em ir atrás de uma informação diferente da corrente. O pior foi e continua sendo a relação com a imprensa, que tem por princípio ético e moral a obrigação de investigar e não o faz, não cruza informação, não lê, não busca novas fontes, não é capaz de pensar horizontal.

Estou escrevendo estas linhas porque depois de mais 30 anos de interação com a imprensa pela primeira vez um jornalista, Carlos do Valle, do Jornal da Tarde, (O Estado de São Paulo, C8 | Cidades/Metropole | Domingo, 08 de Outubro de 2012 – O Estado de São Paulo Caio do Valle – JORNAL DA TARDE (link no final do texto)) agradeceu os comentários e críticas que fiz a sua matéria, mostrando interesse em pontos de vista novos. Senhores, mais de 30 anos para isto acontecer. Confesso que tive um dos maiores acessos de choro de minha vida, não sei bem se de alegria ou de depressão pela surdez geral brasileira. Definitivamente não sou dono da verdade, que o tempo faz camaleoa. Mas adoraria deixar de ouvir que somos o país do futuro – que nunca chega.

Pedalando na ciclovia Faria Lima me sinto feliz. Mudou tudo; a cidade, o número de pessoas nas ruas, a quantidade de carros e bicicletas circulando. As ciclovias de canteiro central, contra as quais lutei, hoje são uma boa opção, até mesmo por que praticamente não há outra. Só espero que os ciclistas se deem conta que para ter a ciclovia ali boa parte do verde da avenida desapareceu. Eu preferia o verde. Há outras alternativas. Espero também que não se caia na mesma barbárie da decadente sociedade do automóvel que para abrir novos caminhos passaram por cima da razão e bom senso. Bicicletas devem construir uma cidade nova, não seguir as trilhas dos pneus da devastação. Para que isto não aconteça é necessário ter a mente aberta. Nem burro gosta de tapa olho e cabresto.


terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Bang bang anuncia a festa

Bang bang! Nós estamos mortos.

Na padaria do supermercado é necessário pagar o pão num caixa instalado na própria padaria, que fica no meio de todas outras mercadorias, longe das portas e caixas. Tiveram que fazer assim por que há muita gente que come tudo entre a padaria e o caixa, joga o saco fora e não paga. Outro dia estava o gerente ali e começamos a conversar. “Porque não levam para a Delegacia os que não pagam? Quanto são? Uns 20%; 30% ?” Ele continuou arrumando a prateleira até tomar folego para a resposta. Levantou-se e disse com uma infeliz calma: “Esta padaria fazia R$ 20,00 reais por dia. Hoje, quando faz pouco, faz R$ 1.200,00”.

O “assalto” da moto na av. dos Bandeirantes dá bem o tom dos dias de hoje. O casal para no semáforo com sua supermoto zero; vem dois noutra moto, anuncia o assalto, o dono da supermoto tenta fugir, toma um primeiro tiro, bate num carro que está cruzando a avenida, cai no chão com a garupa, sua mulher. E aqui começa a verdade de nosso Brasil: os assaltantes aceleram, param ao lado dos dois caídos, executam os dois no chão e vão embora. Bang bang!

Que diferença faz numa cidade que tem uns 10 mortos por noite? (Mesmo com esta crise São Paulo continua sendo dos lugares mais seguros deste país). Que diferença faz no país do nunca antes houve violência igual? Que diferença faz comer dentro do supermercado e não pagar? Belo socialismo! Meus parabéns!

Façamos justiça: Brasil sempre foi um país violento. Não é de hoje, nem culpa exclusiva dos donos do nunca antes. O que faz diferença é que o “nunca antes” é pretensão grosseira, prepotência burra, mediocridade sem fim. É um exemplo altamente destrutivo. Quais são os números do militares mesmo? Quais são os números atuais? “Quem matou mais?”, usando a pergunta que a pseudo-esquerda tanto repete.  Deprimente!

“Ao socialismo se vai em bicicleta”. Gosto de repetir sempre por que é a pura verdade. A construção de uma nova sociedade, mais justa, menos violenta, se faz usando experiências que deram certo, como a da bicicleta. Só ela resolve tudo? Obviamente não, mas a bicicleta traz consigo uma “cultura de paz”, induz a maioria dos seus usuários para o bem. Assim como o caminhar, o conviver, o falar, o respeitar...., enfim: viver e deixar viver.

No próximo domingo vai acontecer a Rota Márcia Prado 2012 e uma multidão vai descer pedalando para Santos. Já deve ter algo próximo a 6 mil inscritos. Eu torço para que chegue aos 10 mil ou mais. Que seja o caos. Abriram a caixa de pandora, pois que aguentem com as consequências. Não acho responsável mudar da água poluída para a cachaça do dia para noite, por que a festa vai descambar para o pó, ou as pedras, a escolha. Mas se  caixa de pandora da liberdade está aberta, vamos nesta.

Felicidade coletiva é a melhor coisa do mundo, mesmo que se tenha que passar por cima de uma série de leis que vão contra. Das mais variadas, mas vide o Código de Trânsito Brasileiro, que lendo calmamente mostra seu lado “código de trânsito para fluidez de veículos em vias”. Ups! Esqueceram do resto: pedestres, ciclistas e deficientes? Não esqueceram, mas... , pegaria mal. Amassa capô. Que chato!

Que seja! O medo de muitos que vão participar da Rota Márcia Prado é a passagem pela estrada de manutenção, onde sempre há assaltantes. Sim, eles estão lá faz tempo e como ninguém faz absolutamente nada lá ficarão. Espero que ninguém tome tiros. Talvez algumas bicicletas sejam roubadas, mas faz parte. Sempre há o nunca antes. Parafraseando o Maluf, aquele que apoiou o Haddad lado a lado com o também honestíssimo Lula: “roubar pode, mas matar não”.

Bang bang!

Veja o Roda Viva com o Claudio Beato - Professor da UFMG. Coordenador do CRISP - Centro de Estudos em Criminalidade e Segurança Pública. Imperdível e de arrepiar:
http://tvcultura.cmais.com.br/rodaviva/claudio-beato