quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

III Fórum Mundial da Bicicleta - Curitiba 2014

Posso falar muito pouco sobre o III Fórum Mundial da Bicicleta de Curitiba por que tive que ficar por conta do estande da União de Ciclistas do Brasil e das articulações para a eleição da nova diretoria que aconteceu lá, no sábado. 
Pelo que vi o Fórum foi bem organizado. No geral os comentários de quem teve a oportunidade de participar dos mais diversos eventos foram sempre muito positivos. O interessante de ficar por ali, mas fora do principal, foi ver que o pessoal está amadurecendo. Não se ouve mais alguns extremismos adolescentes de alguns anos atrás. Os interessados sabem o que querem e parecem ter uma estratégia bem estabelecida para chegar lá. A sensação que dá é que a era do chute na porta de carro praticamente passou e o movimento vai indo no sentido da cidadania neutra, com foco na mobilidade, sem ideologias gritantes. Dá até para fazer piada, cutucar a posição do outro, sem azedar. Ótimo. 
Como disse, não sei como foi a audiência dos eventos, mas posso ter uma noção tanto por que não tinha aquela grande tropa gazeteando aula, matando palestra, fofocando e enchendo a cara no boteco do outro lado da rua. Tudo muito tranquilo, corretinho, bacana. Por exemplo, minha palestra que tinha um tema estranho, Qualidade e Equidade, foi marcada num horário que achei que poderia ser um mico, 13:30 h; dai imaginei uma sala provavelmente vazia. Não era uma sala, mas um auditório. Para completar caiu uma bela chuva na hora. Mesmo assim, para minha boa surpresa, comecei a palestra com um terço do auditório, que aos poucos chegou a dois terços de um público bem interessado e interativo. 
Teresa D'Aprile, do Saia na Noite, que também achava que faria uma conversa com meia dúzia, se tanto, teve umas 60 pessoas presentes. 
Lá em baixo, no pátio entre os dois edifícios onde aconteciam os eventos onde acontecia a feirinha e estava o bem organizado e lotado bicicletário, passava todo tipo de gente e umas tantas bicicletas "chiques", das chique capenga e das chique chique chilique. Gente fina é outra coisa. Tenho a curiosidade de ver quantos dos que estiveram lá permanecerão e para quantos o momento é momento e moda. Creio que boa parte é moda mesmo. Gente chique é outra coisa...
Digo por mim e pelo que ouvi que o Fórum foi muito bom para gregos e troianos. "Vai ser difícil fazer um Fórum melhor" disseram alguns. Eu espero que o próximo Fórum continue nesta toada crescente. 

A eleição da nova diretoria da UCB me deixa muito feliz por que dá o cargo de Diretor Presidente ao André Geraldo Soares, que na realidade sempre foi a UCB viva e ou a vida da UCB. A candidatura da chapa encabeçada por André Pasqualini foi derrubada pela ausências dele, que estava trabalhando em Maceió, e de Renato Zerbinato, assim como pela falta de alguém com uma procuração em mãos para representa-los. 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

café expresso e Serra do Cafezal

Café expresso com broinha de milho, receita moderna da política do café com leite. As broas mineiras são mais airosas e saborosas que esta aqui industrializada, mas o café mineiro, aguado, continua sendo um horror. Faz mais de 30 anos, não existia café expresso, pelo menos aqui no Brasil, e o café de coador, bem passado e forte, era bem saboreado. Tínhamos tempo e calma suficiente para parar na mesa de casa ou na padaria para ver o vapor subindo, sentir o aroma, olhar a broa crescendo no forno e conversar, conversar e pensar...
Um dia entramos, eu e tio Renato (Brandão), uma figura especial à beira do limite da normalidade, na padaria da rua principal de Cambuquira, Circuito das Águas e Sul de Minas, e demos no canto a direita com uma mesa cheia de fazendeiros conversando. Ao ver tio Renato chegar um deles foi logo chamando e perguntado: “Ô Renato, meu caro, o que você acha? Mantemos os cafezais ou mandamos tudo para o chão? Plantamos café novo outra coisa?”. Na época as fazendas de café da região produziam um café de baixa qualidade e cada dia menos rentável. Tio Renato era conhecido e tido com algum respeito na região por que havia começado uma granja modelo de porcos com procedimentos de qualidade desconhecidos então, o que assustava a mineirada cabocla tranquila ainda perdida no passado. A resposta, detalhista, típica de quem sabe que é socialmente chato, mas respeitado por ter boa informação, terminou com um “....Por tudo isto, derruba tudo e planta café da mais alta qualidade”.  A expressão de todos, mesmo os que até então não tinham levantado o rosto da mesa e xicara de café ralo e frio, foi forte, decisiva. Sei que tio Renato não foi a palavra final, mas também sei que dali, daquela mesa com os principais fazendeiros de café da região, incluindo da cidade vizinha Três Corações, teve origem o ótimo pó de café que acabou de fazer o delicioso expresso que acabo de tomar.
Na época ainda circulavam os últimos velhos, lentos, poluentes, barulhentos e muito fortes FNM (Fábrica Nacional de Motores), os primeiros caminhões nacionais, conhecidos como “fenemê”. O Brasil era outro, muito menor, infinitamente mais tranquilo, mais lento. Mesmo assim a Rodovia Regis Bittencourt já era um perigo e um problema, principalmente nas serras. Já se falava na sua duplicação, na necessidade de redução dos acidentes, na maior rapidez da viagem, na importância vital desta ligação rodoviária entre a Região Sul e a Sudeste, as propulsoras da economia nacional.
Nestes 40 anos a estrada foi recebendo alguns melhoramentos, mas a Serra do Cafezal continuou igual com todos seus problemas, desastres, estrangulamento de trânsito, lentidão... Principalmente por causa deste trecho a Regis é conhecida com “Estrada da Morte”. Foram inúmeras as razões para que o problema não tenha sido resolvido, principalmente a questão ambiental, mas o Brasil cresceu muito e junto com ele a importância estratégica da Regis. Só agora está sendo feito a duplicação da pista na Serra do Cafezal. Quando ficar pronta vai ser um imenso progresso, mas provavelmente a obra já vá ser entregue aquém da demanda... Mas não este não é o ponto.
Qualquer que tenha sido a razão, a Serra do Cafezal é prova inequívoca que vivemos num país que não tem futuro. Estes estúpidos 19 km devem ter representado uma perda para o país, portanto todos nós, quase imensurável em todos aspectos, do econômico ao ambiental, da erradicação da pobreza ao passo seguro para o futuro. A Serra do Cafezal é prova de nossa falta de inteligência e capacidade de realizar. Em 30 anos teria sido possível abrir tuneis a mão, com inchadas, pás e burros de carga. Ou, se houvesse menos indolência e desinteresse, teríamos pensado e realizado alguma solução. Nada, absolutamente nada, além de atraso e mortes, uma atrás da outra, sempre.

Ontem demorei 9 horas de Curitiba a São Paulo, sendo 3 horas para cruzar a Serra do Cafezal. Ou seja, numa mula teria sido mais rápido, menos custoso, mais eficiente. Dentro do confortável ônibus, vendo um filme colocado para acalmar ânimos, me senti mais uma vez envergonhado com meus silêncios. Como poderia ter lutado para que esta estupidez já tivesse sido resolvida? 

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

World Bike Tour SP 2014 triste


Depois que Emerson Fittipaldi saiu da F1 e antes sua ingresso na Fórmula Indy fizeram uma corrida de kart na Praça Charles Miller com kartistas profissionais. Praça cheia, gente se divertindo. Fez lembrar tempos passados que corrida de kart se fazia no meio das cidades. Eventos na área do Estádio do Pacaembu acabaram por que os vizinhos que não querem ser incomodados; o que é um direito deles, mas uma tremenda sacanagem com a cidade. Eventos no meio da rua ou estacionamentos são essenciais para a vida na cidade.
Os irmãos Anderson, Clovis, Celso e Cleber (ainda tem mais três) começaram no ciclismo participando de um torneio escolar que dava a volta no quarteirão. Mais ou menos na mesma época surgiram algumas pistas de BMX me praças públicas ou terrenos baldios. A molecada achava o máximo. De lá saíram ciclistas olímpicos e campeões internacionais. Porque não se repete?
A maratona, as meia maratonas, as de 10k e a São Silvestre tiveram seus trajetos recentes estabelecidos para atrapalhar o mínimo possível o trânsito. A descida da Major Natanael logo depois da largada da São Silvestre é um crime contra todos corredores. Correr na Marginal Pinheiros é outro crime contra os maratonistas. E assim vai. Pior, perdeu-se grande parte do público que assistia, aplaudia, se divertia, e principalmente uma oportunidade maravilhosa de estímulo à melhoria da saúde pública.
Eu presenciei o último Passeio Ciclístico da Primavera no Ibirapuera. Vi a largada e fiquei esperando o fim da saída da multidão de ciclistas que não acabava mais para ir atrás e aproveitar melhor as avenidas fechadas e pedalar em paz. Vi com estes olhos, de cima do carro de som, ao lado de Bruno Caloi e Caio Pompeu de Toledo, Secretário Municipal de Esporte e Turismo e responsável pelo passeio (idealizado por Caio Carvalho), os primeiros ciclistas terminando o passeio lentamente quando ainda faltava largar muita gente, uma assustadora e deliciosa confusão nunca vista. Fez-se um anel de 10 km de ciclistas entupindo avenidas largas. Fiquei tão admirado que acabei não indo pedalar, mas voltei para casa completamente realizado. No ano seguinte o Passeio Ciclístico da Primavera foi diluído...
A Nove de Julho, a prova mais importante de ciclismo do calendário de São Paulo foi realizada durante muitos anos nas avenidas do entorno do Ibirapuera, com um bom público. Depois passou para o entorno do Campo de Marte, com um público muito menor. E dai foi para Interlagos, com um público muito menor ainda, mínimo, horrível. Triste fim para um evento ciclístico que foi tão importante que dava primeira página de jornal, saía de Santos, subia a serra cruzava São Paulo e terminava no mesmo Ibirapuera.
Infelizmente, ou felizmente, não sei bem, não participei ou vi de perto o World Bike Tour de São Paulo deste ano, mas mesmo longe pude entender que algo saiu muito errado. Será o fim de mais um grande evento de rua? O evento escorregou feio e teve que ser adiado por uma semana para tentar corrigir erros de organização e ter todas as bicicletas em ordem, o que não aconteceu. No dia seguinte o SPTV da TV Globo, apoiadora do evento, noticiou os problemas com as bicicletas, que com certeza não se restringiu só às 16 alegadas pelo organizador. Eu estava na Ponte Cidade Universitária por onde passaram muitas bicicletas capengas, principalmente pedais soltos, uma repetição do erro estúpido do primeiro WBT. Os participantes relataram uma grande bagunça na entrega das bicicletas, um pega o que puder e até um leva quem quer. Triste. Será o fim de mais um evento de grande público?
O que fica claro é que a cidade da administração pública historicamente não é para as pessoas, para a vida, não é da alegria, do bem estar, da continuidade de eventos de sucesso. Infelizmente nós, brasileiros, temos pouco apreço pela tradição, pela continuidade.

Sei os limites de atuação da administração pública e sei que eles não podem interferir numa organização com a do WBT, mas o evento é público, um sucesso e (talvez ainda) de interesse estratégico para a cidade. Com inteligência poderia ter sido usado como divulgação ou mesmo propaganda de coisas boas. Não estão fazendo isto com o futebol, que não passa de um rentabilíssimo negócio privado (mesmo sendo inadimplente)? Por que não apostar algumas fichas para evitar uma confusão com esta do WBT? Dá para fazer algo sem cair na ilegalidade. 

fotos: Teresa D'Aprile

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

o status da bicicleta

A Land Rover Discovery com uma bicicleta topo de linha pendurada no rabo é roubada por homens armados e logo em seguida encontrada intacta, mas sem a bicicleta. Simples: a bicicleta é muito mais difícil de ser encontrada, muitíssimo mais fácil de vender, e dependendo do modelo o preço alcançado pelos ladrões seguramente é mais alto que o pago pelo roubo do carro, mesmo sendo uma Land Rover Discovery nova.

Talvez a pergunta mais frequente que me fazem é porque não compro uma bicicleta topo de linha?

Me lembra uma história (real) que aconteceu na av. Cidade Jardim nos primórdios do celular. O carro grande e importado de uma senhora quebrou no meio da avenida na hora de pico. O pessoal tentou encosta-lo, mas com o câmbio automático travado não saiu do lugar. No meio da confusão, buzinas e xingamentos, a senhora desesperada viu um sujeito bem vestido dentro de um carro esportivo com janela aberta e falando num dos raríssimos celulares então existentes. Foi até o homem e pediu educadamente:
- Boa noite. Estou com o carro quebrado atrapalhando o trânsito. Por favor, me empresta o celular para chamar o socorro.
O homem fez que não a viu nem ouviu. Ela repetiu calmamente o pedido. Ele olhou para ela e continuou falando no celular, esnobando. Irritada, ela repetiu o pedido mais enfática.
- Me empresta o celular. Não dá para parar todo o trânsito... Eu pago a ligação!
- Você não vê que estou falando? Não vou emprestar! Compra o seu.
E a senhora, num ato quase de fúria, simplesmente arrancou o celular da mão do homem... e descobriu que era uma replica de plástico daquelas compradas em qualquer camelô.

As malas Louis Vuitton foram compradas as duras penas em prestações. Imediatamente depois da compra, ainda dentro do shopping, foram jogadas dentro do porta-malas meio sujo do carro, e ali ficavam até ganhar um ar de bem viajadas. Então foram assim não mais que simplesmente esquecidas na sala de estar da boa casa em bairro nobre, para a inveja das amigas.

A bela casa no bairro nobre, bem ajardinada, com entrada, salas de estar e jantar, lavabo e cozinha ricamente decorados para os convidados. Não houve dinheiro para o resto da casa e o conforto da família, que vivia precariamente acampada ali.

Quais são os valores mais caros para uma vida? 
Eu adoraria ter uma bicicleta topo de linha, ou melhor, várias bicicletas, muitas, mas e daí?
Bicicleta hoje não passa do status da moda. Confesso que isto me incomoda. 

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

voo de urubu, águia aprendiz

A Ponte Bernard Goldfarb sempre foi meu voo sobre a paisagem do rio Pinheiros, sua várzea urbanizada e ainda verde, o Pico do Jaraguá ao fundo e as variações de horário, clima e ventos. Um voo apertado, com uma pitadinha angustiada, entre a mureta que me segura de um salto idílico nas águas límpidas onde minha mãe ainda menina nadava no rio, e carros e ônibus circulando na faixa apertada  que cruzam para a outra margem num sobe e desce. Dos veículos não há tempo para se tirar os olhos do caminho; nem imaginar parar, encostar à mureta e olhar, girar a cabeça e continuar a olhar, 360 graus de cima. A bicicleta já se fez amiga da mureta.

Manha quente e na parede do grande edifício novo que fica do outro lado do rio, na cabeceira direita da ponte, um urubu aproveita a térmica e o vento que bate e sobe rente à parede, e exercita um voo suave, fluido, de discretas correções com asas e rabo. Eu o vejo do topo da ponte, num de seus rasantes. Paro a bicicleta já na descida e voo junto, sentindo com grande inveja as mudanças de direção, a o peso da força da longa curva anti-horária, do sobe e desce, a delícia de passar rente à parede atirado ao ar, sob controle, para quem quer que dos funcionários enfurnados em seus trabalhos possa ver uma sombra preta, sair da tela do computador, e voar na paisagem dele, urubu. Voa em círculos e mais círculos, no seu voo, simplesmente voo, urubu, nada mais, nem razão de ser, mas prazer. Ele abre o círculo, sobe, diminui sua velocidade, abre as asas imponente e pousa escondido de meus olhos no edifício em frente, do outro lado da avenida. Sigo olhando para cima encantado pela natural maestria. Se faz um breve silêncio em meu êxtase. “Hora de seguir...” Mas outras asas se abrem no beiral, menores, cinzas escuras com as pontas brancas; também retangulares, e uma cabeça branca com um formato delicado e um olhar irrequieto e um tanto ameaçador. Para decolar bate as asas com força, mas um tanto desajeitadas para a leveza de um urubu. Perde altitude para ganhar velocidade e cruza a avenida no sentido da parede do grande edifício. A águia, imponente na sua postura, busca fazer os mesmos círculos do urubu, como fosse um desajeitado aprendiz. Dá algumas voltas, sobe e pousa no telhado do edifício provavelmente próximo do urubu. Qual será a conversa, os olhares?

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Mudança de rumo

Liberdade. O que será liberdade?
Na terra dos super-heróis, que num passe de mágica resolvem tudo, você se vê obrigado a também resolver todos seus problemas e se possível dos outros, aguentar qualquer tranco, lutar, lutar, lutar e não fraquejar, e não passar vergonha na frente dos amigos e família, principalmente do seu próprio ideal, “The Eghrói”, o herói do próprio ego. Invencível! Vai-se levando até dar merda. Aí, de herói se passa a coitadinho ou idiota.
Na terra e no asfalto dos super-ciclistas os quilômetros rodam em disparada até que a leveza do ser compre um chão impossível e inesperado. Sem perdão! Como um pimpolho – adolescente, feliz e exausto com a divina noite de beijos, longas carícias e chupadas com a amada jovem namorada, toda sorridente, muito bem formada, durinha, bonita e fogosa, desce as ruas vazias da madrugada agradavelmente agasalhada por um céu outonal pedalando em suaves zig-zags de alegria, para lá e para cá, olhando a lua crescente com seu sorriso de gato, deixando que velocidade e o vento na cara aumentem na descida em zig-zags orgásticos e então a roda da frente se fecha e o super-jóvem-apaixanado sai voando por sobre o guidão, tangencial ao leito de asfalto áspero que rasga a roupa e vai lixando a pele, deixando um rastro de mais de 10 metros no leito negro da rua. Parou. A bicicleta torta passa rangendo e para mais adiante. Silêncio completo. Só uns primeiros pássaros madrugadores piam ainda meio adormecidos. Gemidos, alguns gemidos seguidos de uma gargalhada indefinida pelas horas bem passadas e o ralado presente. Interessante: daquele ângulo, rosto colado ao chão, a terra parece plana.  
“Acidentes acontecem. Só pode ser piada!”
Não existe liberdade sem disciplina. Não existe felicidade sem disciplina. Disciplina. Disciplina. Não existe mudança de rumo sem disciplina. Disciplina. Maldita falta de disciplina... onde está o papel que fiz anotações e que deveria estar aqui (no meio deste caos de papeis amontoados...)? Sim, sim, aqui está, vamos lá:
Percepção correta
Pensamento correto
Fala correta
Comportamento correto
Meio de vida correto
Esforço correto
Atenção correta
Concentração correta
Sem disciplina não há liberdade e felicidade. Mas o que é liberdade e o que é felicidade? Responde um compartimento indefinido e especial de minha consciência: a vida é como as nuvens: algumas vezes as vemos, quando as vemos sempre passam e nunca mais serão as mesmas. Liberdade e felicidade têm lá suas dinâmicas, algumas vezes invisíveis, imperceptíveis, outras passam e tiramos proveito. Sobre o bom não nos questionamos. Que desperdício!
O jovem ciclista ficou no asfalto olhando em volta a procura de um socorro, uma mão amiga que o levantasse dali e o fitasse com olhos caridosos. Não ouviu sequer um apito de qualquer guarda-noturno, àquela hora já encostados num canto e roncando a espera do som do despertador de seu patrão. Levantou-se dolorido, olhou com tristeza e raiva a bicicleta e sua roda torta como um 8, levantou-a como pode e foi arrastando-a para casa, com desejo do banho e finalmente o conforto inequívoco da cama. E assim foi, até o dia seguinte quando acordou com o lençol grudado ao corpo raspado, dos pés a cabeça. Levanta da cama, enrola-se no lençol meio branco meio rosa sangue, abre a porta e dá de cara com a santa mãe no corredor. Perplexa, mas acostumada, ela pergunta - “O que é isto menino?”. A resposta foi mais fácil e menos dolorida do que ter que depilar o lençol grudado debaixo do chuveiro.
Cuidado com carinho maternal, esterilizado, vestido só num calção, senta-se à mesa posta para o café da manha, divino como sempre, com pão fresco, crocante, recém saído do forno, ainda quente, geleia caseira meio azeda de mexerica do rio, manteiga, e um forte aroma de bom café que ainda no fogão goteja do coador no bule. Senta-se ela na cabeceira, estende a mão, me olha com o verdadeiro carinho severo de mãe.

- Meu filho, a verdadeira mudança não está lá fora, mas em você. Se você não mudar não vai conseguir a felicidade que tanto quer. 

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A vida e o karma da bicicleta

A vida tenta nos ensinar, mas é difícil, quase impossível aprender. Com frequência ela nos leva e nosso ego ainda delira que estamos conduzindo a vida. Fruto da acomodação.
Esta semana estive a mercê dos desígnios chatos vida. Oh semaninha! Provavelmente foi um treinamento zen. Vale para quem acredita. Ainda não sei o que devo tirar deste aprendizado. Talvez o recado seja a paciência por si só, o que já bastaria. Zen...
Não somos treinados para olhar com atenção e aprender do que a vida em seus detalhes mais simples e bobos nos ensina, ou tenta nos ensinar. Temos um bloqueio que serve para proteção da saúde mental que estabelece até onde conseguimos absorver as verdades da vida. A partir dai entra a fantasia não só um instrumento de acomodação, mas principalmente de sobrevivência. Passou de certa aceleração é arremessado pela tangente incerta. O problema é que a fantasia é verdade coletiva e parece o caminho correto dos ineptos funcionais.
E ai vem a magia da bicicleta, como a da vida. Bicicletas tem vida própria, tem alma. Não, não é discurso de alguém que ama bicicletas, mas física pura, ciência pura. Resiliência, simplesmente resiliência.
Do IDicionário Aulete:
(re.si.li:ên.ci:a)
sf.
1. Fís. Propriedade de um material retornar à forma ou posição original depois de cessar a tensão incidente sobre o mesmo, determinada pela quantidade de energia devolvida após a deformação elástica, ger. medida em percentual da energia recuperada que fornece informações sobre a elasticidade do material.
2. P.ext. Ecol. Capacidade de um ecossistema retornar à condição original de equilíbrio após suportar alterações ou perturbações ambientais.
3. Fig. Habilidade que uma pessoa desenvolve para resistir, lidar e reagir de modo positivo em situações adversas.
[F.: Do lat. resilientia, part. pres. de resilire.]

Nada se cria, tudo se copia. Exatamente como na vida é muito difícil transmitir conhecimento sobre a vida da bicicleta e o pedalar, principalmente no meio de um povo que não tem a cultura do ouvir, como o brasileiro. “Eu sei pedalar”; “Este é meu jeito”...
Bicicleta tem vida própria. Deixa ela te levar. Se você brigar com ela provavelmente vai se machucar. Olhe a sabedoria dos “pé de chinelo”, aqueles ciclistas de baixa renda que nasceram sobre uma bicicleta, aprenderam a pedalar numa coisa de duas rodas, não tem outro opção modo de transporte, pedalam o que tem a disposição e onde é possível. A vida/bicicleta os leva naturalmente por que eles aceitam. Aceitar, simplesmente aceitar!
Aprendemos da vida quando esta não nos dá alternativa. Ou quando nos permitimos. E perdemos oportunidades quando apanhamos da vida e nos recusamos a tentar entender o que aconteceu. Na vida, como na bicicleta, há uma hierarquia e nós devemos aceitar que somos simplesmente passageiros, mas que, com gentileza, podemos conduzir nossos destinos. Quando fazemos assim seguimos em frente com tranquilidade. Karma!

A bicicleta está ali. Suba nela e deixe que ela o leve. Respeitei-a com um ser. Divida. Zen é a arte de pedalar com segurança. Ciclismo é a arte da suavidade.