sexta-feira, 15 de maio de 2026

Eu sou inteligente. O outro é ignorante. Cuma?


Estamos mais inteligentes? Sabemos mais? Provavelmente. Mesmo o mais ignorante dos ignorantes de hoje tem muito mais informação que um qualquer do povão de tempos passados, principalmente nestes tempos de celular e internet. Mas ter informação não significa que o sujeito saiba pensar melhor. Conheço uma tonelada de pessoas ditas de elite, econômica e cultural, que sempre tiveram e continuam tendo pleno acesso a informação de qualidade e são umas bestas quadradas ambulantes.

Eu adoro a expressão que um amigo sempre usava para referir-se a estes que se acham inteligentes: "É um ostra com paralisia mental". É o que não falta. Os ou as piores são aquelas / aqueles que se acham um gênio, os famosos ou as famosas que acham a "Última bolacha do pacote".

Na busca pelo Google: Inteligência é a capacidade mental de aprender com a experiência, adaptar-se a novas situações, compreender conceitos abstratos e usar o conhecimento para manipular o ambiente ou resolver problemas. Envolve raciocínio, planejamento, criatividade e memória, sendo descrita tanto como uma habilidade geral quanto por múltiplos tipos (lógico, emocional, social).

No geral, no jargão popular, quem era considerado inteligente num passado não muito distante, uns 40 anos atrás? Quem conseguia decorar as lições, que por conseguinte tirava boas notas, os CDFs. Os que vão na escola, são bons no trabalho, ou para o povão "os que sabem das coisas". Alguns de fato eram e são. Este conceito geral de inteligência ainda vale ainda para a maioria. Boa memória faz muita diferença na venda de quem se é. Pequeno detalhe, memória até pode ajudar na formação da inteligência, mas não é inteligência, é memória.

Tive a sorte de ter conhecido algumas pessoas bem fora da curva, uns de memória excepcional, outros de inteligência excepcional, e os que juntavam as duas. Não tenho dúvidas que conviver com quem tem memória acima da média é muito mais agradável porque eles a usam como ferramenta de poder social relembrando fatos e nomes com uma facilidade invejável. 
Já os superdotados..., bem, estes são um pouquinho mais complicados, só um pouquinho. Cito dois, um fechado em sí próprio, arredio, difícil de conversar. O outro expansivo, comunicativo, explosivo, como definia seu filho "Não é se ele vai ou não brigar com alguém, é certeza que num momento ele vai aprontar uma discussão pesada, resta saber quando". Os dois fizeram coisas na vida completamente fora da compreensão dos normais, da família, amigos e os que trabalharam junto.

E há o que a ciência definiu não faz muito, faz uns 30 ou 40 anos, como inteligência específica. Garrincha fora das quatro linhas, o campo de futebol, pensava quase como uma criança. Já  jogando um mundial foi 'a' diferença, um gênio, inteligência de jogo e habilidade incomparáveis. Numa partida decisiva para o Brasil, com placar contra, Garrincha entrou sozinho na área, diblou um, diblou dois, ficou de frente para o goleiro sozinho, voltou a diblar os zagueiros, e só então fez o gol. No vestiário os que viram tudo aquilo e quase enfartaram, perguntaram para ele se estava louco, porque não tinha marcado o gol na primeira vez que ficara de frente para o gol. Garrincha respondeu com toda a sinceridade: "O goleiro não abria as pernas".

Voltando: inteligência específica é a capacidade de pensar e resolver bem situações muito específicas. Um favelado criou barracos dobráveis, que permitiam desmontar e montar a pequena favela muito rapidamente, alguém avisava a chegada do rapa, e eles desapareciam. Outro favelado, um velho senhor, criou uma favela com a mesma técnica de castelo de cartas, se tirasse uma parede caia tudo, mas a estrutura era muito firme e estável. Um velho trabalhador de uma tecelagem entrava no setor de produção e sabia qual máquina que estava com qual problema, com um detalhe, um setor de máquinas de tear faz um barulho ensurdecedor, mesmo assim ele não errava. Um pescador, já muito velho, subia num morro e orientava os pescadores onde estavam os peixes, isto a centenas de metros de distância. Inteligências específicas. 
  
Se a sociedade fosse treinada para perceber e aproveitar estas inteligências estaríamos muito mais bem arranjados. Por uma série de razões, inclusive pela venda que todos somos inteligentes e que cada um de nós temos que lutar pela própria inteligência para garantir um lugar ao sol, não interessa reconhecer uma inteligência que seja de fato útil a todos. O outro é uma besta e nós somos inteligentes, ponto final.



Eu sou inteligente? Não! sou invejoso, muito invejoso da inteligência dos outros, as normais e as específicas, e os fora da curva, os superdotados. Adoro conviver com eles, agradeço muito a benção de ter tido vários 'malucos' por perto, da mesma forma agradeço muito não ser um deles.



E não é que a Eldorado silenciou

 Ouvi os últimos minutos de transmissão da Rádio Eldorado. E não é que um pouco antes da meia noite ela silenciou. Confesso que não sei o que pensar. Mais uma perda em minha vida. Mais uma perda em nossas vidas, perda incalculável. Mas quantos saberão calcular, quantos tem a ciência e a consciência para avaliar?

Vivemos uma época de terra arrasada, da vulgarização do passar por cima a qualquer custo para abrir caminhos incertos. O passado é a bússola para o futuro. Cultura!

A vida é como nuvens que passam, não voltam e nunca serão as mesmas. A bússola do passado ensina o saber olhar o caminho das nuvens, as que vem e as que somem no horizonte. Nada será como antes amanhã. Mesmo assim é sábio viver a vida bem, acordar, comer, andar, pensar, trabalhar, descansar, acordar... Moto continuo. Aí entra a bússola, agulha do passado que aponta para o norte do futuro seguro.

Algumas coisas não se deve deixar estragar, acabar. Inteligência é uma delas, talvez a principal. Rádio Eldorado silenciou. Que horror. Silenciou de verdade. Pode?

Nós silenciamos. Há momento para tudo, para o silêncio e para a manifestação. Onde eu errei? Quando troquei de momento certo meu silêncio? Com certeza agora foi. Melhor, foi-se. Deprimente.


quarta-feira, 13 de maio de 2026

O absurdo fim da Rádio Eldorado FM

Fórum do Leitor, O Estado de São Paulo

Quinta-feira, dia 14 de Maio de 2026, se derá a última transmissão da Rádio Eldorado FM, o que é mais um absurdo dentre os inúmeros que este país está vivendo. Pertencente ao Grupo O Estado de São Paulo, a Rádio Eldorado completa 68 anos no ar não só como uma simples rádio, mas como uma emissora que realmente cumpriu o dever civilizatório de informar e transformar para o bem não só a cidade de São Paulo, mas o Estado de São Paulo e o Brasil. Emitiu uma programação musical diferenciada em todo país, muito inteligente, desde seus primeiros dias. Lançou vários artistas de alta qualidade no mercado. Encampou inúmeras ações de melhoria da qualidade de vida da população, como o da recuperação das águas do rio Tiete, o que influenciou em ações semelhantes por todo país. Falando sobre vários esportes, de grande público ou não, dentre eles a vela, se pode dizer que teve uma participação, discreta e pouco conhecida, na conquista até de medalhas Olímpicas.

Sendo leitor do Estadão desde sempre, 71 anos de vida, confesso não entender como foi permitido o fim da Rádio Eldorado. Conhecendo a história deste jornal, simplesmente não consigo entender o que está acontecendo. 

Novamente, por mais que tente, não consigo entender a posição do Grupo Estado de São Paulo.

A todos que fizeram e fazem a Rádio Eldorado, muito, muito, muito obrigado.

Agradeço muitíssimo a oportunidade que me deram para participar desta rádio sensacional com o Bike Repórter Rádio Eldorado. 


Renata gravou está gravado: eu vergonhosamente pedalando nas calçadas. Mea culpa!


sábado, 9 de maio de 2026

O que deveríamos aprender com os 20 anos do cortiço na Oscar Freire

20 anos? 20 anos? 20anos! Sim, 20 anos. 20 anos para uma decisão da justiça. Justiça?

Na esquina das ruas Oscar Freire com Haddoc Lobo tem um comércio que está fechando faz sei lá quanto tempo, mas a décadas. Na al. Casa Branca, abaixo da Oscar Freire, um edificio ficou inacabado por mais de 30 anos. Pela cidade são inúmeros os edifícios que estão largados ou invadidos. São inúmeros os casos de disputas judiciais sem fim como o deste pequeno e belo edifício na esquina da Oscar Freire com Peixoto Gomide. Onde está o problema? Nas leis? Desconheço, mas é bem provável. A morosidade de nossa justiça é patente, a probabilidade que as leis existentes ajudem a confusão é grande.

Estas construções abandonadas fazem parte de uma rua, de um bairro, de uma cidade, de uma comunidade, portanto são propriedades privadas dentro de um contexto coletivo. Em NYC os imóveis não podem ficar mais de 6 meses desalugados ou o proprietário sofre sanções pesadas por dano ao coletivo. Em Paris os edifícios são obrigados a restaurar a faixada a cada 10 anos, pelo bem coletivo. Em Detroit a justiça definiu, pela primeira vez na história da humanidae, que a cidade tem prioridade sobre abandonos e disputas judiciais, ou sobre um senso de propriedade nocivo ao interesse,coletivo. Ou seja, pode ser propriedade particular ou o que seja, mas está inserida num contexto coletivo e este contexto coletivo tem prioridade pelo bem de todos.

A cidade não pode ficar refém da vontade de uns e outros, aos interesses particulares, ditos justos ou não. O interesse coletivo tem que estar acima, tem que ser respeitado, ou afetará inclusive o direito individual em questão. Esta é uma posição que interessa e muito inclusive ao capitalista mais aguerrido. Quanto melhor está funcionando, melhor para o social, melhor para a economia, melhor para todos. Um câncer é um câncer e deve ser tratado ou extirpado o quanto antes. É assim que funciona em qualquer cidade do planeta, e é assim que deveria ser aqui.

Convivi com a invasão do pequeno edifício da Oscar Freire. Sujeira, barulho, e outras inconveniências foram um problema, diria gritante numa área nobre de São Paulo. Mas não só lá; pergunte a um funcionário seu que vive numa comunidade se ele está feliz com a sujeira e a barulheira em seu bairro. Se ele gosta de vizinhos que fazem o que querem, não se importando com o coletivo. Que se faça uma entrevista com os funcionários e trabalhadores do entorno do edifício invadido perguntando o que eles acham.

Fato é que o Poder Público é fraco, ineficiente e não raro inexistente, e não é de hoje. O exemplo do edifício invadido na Oscar Freire é piada pronta. Sem trocadilho, drama pronto, e que drama. Grita aos olhos por que envolve pobres. Já os bares que passam as noites ao som altíssimo, que vivem oferecendo aos vizinhos bêbados falando, rindo e brigando alto no meio da rua, manobristas fritando pneus, que no dia seguinte entulham a calçada com lixo mal cheiroso, que geram baratas e ratos... Estes 'passam' por não ser negócio de pobre, por gerar impostos? Pergunte aos vizinhos. Aliás, próximo do edifício invadido na rua Oscar Freire tem exemplos do que digo. Ok, não se vê ratos e baratas, o lixo é recolhido de madrugadapor caminhões barulhentos, mas de resto incomodam tanto quanto os invasores do edifício. Maldito cheiro de carne na brasa! É de e para a elite, se houver reclamação vai acontecer algo? Pergunte aos vizinhos?

Toda e qualquer cidade do planeta que tem boa qualidade de vida respeita a regra básica onde o bem coletivo a prioridade máxima. Urge rever as leis. Urge quema população se faca ouvir. Urge a recuperação de um mínimo de qualidade de vida. Urge que tomemos consciência que é para amanhã e não para daqui 20 anos, ou sabe-se lá quando.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Boa entrevista de Sérgio Avelleda

 





Corrupção generalizada / master

 

Fanatismo é a forma mais fácil de se levar a cegueira. Estamos colhendo os frutos do fanatismo, que no passado era chamado de "inocente util", e hoje virou "nós e eles" ou também "nós e eles", escolha seu lado. Não sentiu o cheiro de queimada quem não quis, o fogo ardendo vermelho e quente está lá faz muito.

Depois que foram descobertos os campos de concentração, os aliados pegaram toda a população de cidades no entorno e os levaram para ver a barbárie in loco. Hoje temos informações de qualidade a disposição, basta ler.

Temos um país com uma riqueza natural sem igual. Como só olhamos para o próprio umbigo destruímos sistematicamente nosso potencial, e com ele nosso futuro. Alguma novidade no que está vindo a tona? Não sei, mas não me surpreende muito, aliás, não me surpreende nada.

Aos "nós e eles", dos dois lados, que tal vocês deixarem de ser fanáticos inocentes úteis para se transformar em brasileiros?

A única verdade na história da humanidade é "unidos venceremos". Fraticidio é para os doentes. A maluquice que vivemos só irá parar quando nós quisermos - todos, unidos, mesmo discordantes. Não há outra saída. O problema não são diferenças, mas a cegueira que não deixa ver a realidade. E a realidade não está no proprio umbigo, ou dos iguais.

Diferenças, com o uso da inteligência, aponta caminhos e soluções novas. Não sabe disto quem não quer ou não tem capacidade.


PS.: a cegueira, o desinteresse, o olhar só o próprio umbigo, é fato corriqueiro deste Brasil desde sempre, em tudo, em todos setores da sociedade e economia. Os erros que cometemos em tudo beiram o absurdo. "O Brasil não é para iniciantes", dito lá pelos anos 60 ou 70, já deveria ter acabado há muito, mas muito tempo mesmo. O que nos destrói é uma soberba altamente destrutiva embutida no "nós somos diferentes, fazemos do nosso jeito". O jeitinho Brasileiro é mágico quando olha para a eficiência, o contexto, o futuro, o que os outros fazem e nós podemos melhorar. 

Nós e eles é de uma mediocridade sem tamanho. Remete a falência de inúmeras sociedades, a História prova de maneira farta.


Olha só que boa coincidência. O segundo Opinião do Estadão traz o seguinte. 

Meu comentário, ainda no Opinião "O ecossistema da corrupção"

Recomendo a leitura do outro Opinião de hoje, "Um grito de socorro pelas universidades", pricipalmente os três últimos parágrafos. Não se faz necessário lembrar que o mesmo texto poderia ter sido escrito como um olhar sobre a outra face do " nós e eles". Infelizmente, não terá a universidade se transformado numa nova religião? Que diferença há?





quarta-feira, 6 de maio de 2026

Resposta a Miguel Reale Junior

 


Excelentíssimo Senhor Miguel Reale Junior
Antes de mais nada, agradeço e muito suas falas e ações em prol da construção de um país mais justo.

O que respondo aqui tem como ponto de partida uma conversa que quis ter com o senhor durante um jantar em apartamento de um amigo comum.

Na época, por volta de 2005, o senhor teve uma reação imediata e furiosa quando iniciei uma explicação sobre a questão legal da bicicleta. Não tive tempo, aliás, sequer me foi permitido evoluir dada a reação as minhas primeiras palavras. Não pude argumentar que na época o transporte de uns 40 milhões de brasileiros se fazia praticamente só por bicicleta, ou seja, era uma questão de amplo impacto social.

Aziz Ab'Saber, geógrafo brasileiro reconhecido por sua importância mundo afora, um dia declarou que a cidade de São Paulo não tinha topografia própria para o uso de bicicletas. Alertado sobre o erro de sua fala, o sábio, tranquilo e querido Aziz veio a público corrigir sua fala. São Paulo está assentada sobre vastas áreas de várzeas, Tiete, Pinheiros, Tamanduateí, Aricanduva, etc...  

Interessante ver uma eminência se interessando agora por temas, digo eu, mundanos e populares, como a segurança no trânsito de pedestres e motociclistas. Entendo que o desconhecimento sobre bicicletas foi, naqueles anos geral. Bicicletas eram, como continuam a ser para boa parte, um brinquedo, lazer ou esporte de elite, dita sem muita importância no contexto dos temas prioritários ou do social. Mesmo que esta miopia tenha melhorado, ainda representa uma visão de classe média e alta sobre a realidade, aliás, não só sobre bicicletas.

A motocicleta vem substituindo a bicicleta, mesmo assim o número de usuários da bicicleta como meio de transporte nas classes menos abastadas é relevante. Quando tive a infeliz tentativa de conversa, um pedido de orientação, com Miguel Reale Junior, quase um terço dos brasileiros faziam uso intenso da bicicleta no dia a dia, mas eram, como continuam sendo, invisíveis por simples razão: onde circulam e horários de uso constitui um universo fora da realidade das classes média e alta motorizadas.

Interessante o interesse pela segurança de pedestres, outro cidadão praticamente invisível aos olhos de usuários de veículos motorizados.

Por fim, é sabido que temos uma intelectualidade um tanto fechada, restrita a suas áreas específicas de atuação, o que prejudica muito a perspectiva de um Brasil mais funcional e justo.
Devemos e muito a sábios do calibre de Miguel Reale Junior. Ninguém, nem os que tem notório saber, tem obrigação de conhecer a fundo todo o universo. Mas ouvir não faz mal a ninguém, afinal, o mundo não acaba no que se vê.

domingo, 3 de maio de 2026

Zanardi; renascer, reinventar, renascer, reinventar, renascer....

 


Sem mais palavras. Aliás, muito obrigado, muito obrigado 

Inaugurada a terceira maior ponte marítima do Brasil

Quarenta anos de projeto? Aos brasileiros, assistam os capítulos sobre a China atual que está passando no JN da Globo para entender onde nós, brasileiros, estamos. E o que significa estes 40 anos de projeto. Me faz lembrar a Serra do Café na Regis Bitencourt.

Sobre o ambiental, óbvio que uma nova obra cria problemas. A questão é que nós, brasileiros, riscamos do dicionário "contornar com inteligência", que vai ou deveria ir mais ou menos pelo mitigar. Em outras palavras, como mitigar, como transformar um problema em uma alavanca para a solução prática, eficiente e inteligente? Sem números, muitos números, dados precisos sobre todos ângulos, fica difícil saber. 

Números, dados, pesquisas, ciência? Não é nosso forte. Planejamento bem estruturado, de curto, médio e longo prazo? Também não.

O que me assusta nesta história é alavancar o turismo. Este sim poderá ser o pior problema ambiental. Pior mesmo! Os exemplos, inúmeros, quase todos, não deixam dúvidas. 

Valor agregado? Aqui? O que é isso? O Brasil que funciona para valer, e como funciona bem, só nos dá prazer porque trabalha sob os sistemas ISO e outros de qualidade. Quando chegamos a coisa pública... ah! a coisa pública! caímos num populismo Balneário Camboriú. 

Medo do turismo? Lógico que tenho. É para menos?

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Lixo, reciclável

O saco plástico cinza é para lixo comum, úmido, descartável; o verde deve ser usado para o reciclável. Já comecei errado, não é lixo, é... resíduo? Resíduo. Depois procuro, ou lembro.

Nós pegamos muitas e muitas mais destas sacolas plásticas. Eu sou cuidadoso com o meio ambiente, mas de vez em quando esqueço minha sacola em casa, então taca pegar sacolinha plástica (paga) no supermercado. Quantas? Sei lá. A verde é para reciclagem, a cinza para resíduos úmidos. Isto todos sabemos, ou deveríamos saber. 
Resíduos úmidos no verde, é isto? Mas quem se importa? 
Um passo atrás, quem se lembra o que é o que? Não sei qual é o percentual de clientes que na correria do caixa do supermercado vão se lembrar que tipo de lixo tem em casa. Desculpem, quanto resíduo, politicamente ou ambientalmente correto tenho em casa? Quem vai se lembrar se precisa de uma sacolinha cinza ou verde? Faz diferença? O lixeiro, desculpem, o coletor olha e separa por côr? Não tem tempo para tanto. Ele desce do caminhão de lixo correndo, pega os sacos plásticos e o que mais for, correndo, joga tudo no triturador e se pindura na traseira do caminhão para a próxima coleta, correndo. Ele tem tempo para ver a cor da sacola? Alguém fiscaliza?

Chego do supermercado com as benditas, que na realidade são malditas sacolinhas plásticas, tiro tudo delas em cima da mesa, guardo tudo, geladeira, armário, lavanderia, e sento com copo de água gelada para um breve descanso, recuperar as forças do calor fornalha da rua. Dou um gole, pego uma delas para dobrar bonitinho, tipo terapia. UAI? Nunca tinha visto aqueles desenhos estampados na sacola. Ou não prestei atenção. Ou não me lembrava mais. Pego a segunda e vejo que são uma explicação / propaganda de qual uso correto se deve dar a elas.

Não tem nada mais ineficiente que repetir a mesma coisa sempre, principalmente se a informação não for entendida como prioridade. Meio ambiente é prioridade? No Brasil boa parte diz que sim, mas dizer é uma coisa, agir é outra. Em se falando sobre meio ambiente urbano a coisa então fica feia. Coitados dos varredores, coletores de lixo, lixeiros, para muitos cidadãos eles são o fim da linha social. Fim da linha social? Upa! Fim da linha social???? 

Um minuto para nossos comerciais. Esta é a cor da água captada da chuva do telhado de minha casa. O telhado foi lavado na última chuva, faz uns cinco dias, mesmo assim... 

Seguimos com nossa programação.

Toda terça-feira pela manhã passa o caminhão de lixo reciclável. Eu prefiro levar meu reciclável até um centro de coleta aqui próximo. Fato é que cada vez que levo fico espantado com a quantidade de lixo que eu sozinho gero. E olha que me preocupo, tento reduzir. Você já se preocupou em ver quanto lixo gera?

O Brasil recicla muito pouco. Exceto alumínio. O resto, plástico, papel, outros metais e sei lá mais o que, é menos reciclado do que deveria ou poderia. Há técnicas modernas de reciclagem que não sei se são aplicadas por aqui já que nunca vi notícias. Hoje existem máquinas com uma capacidade incrível de separação e preparo do material para reuso. 

Na Holanda estão testando pavimentação com placas modulares feitas de plástico reciclado. Os primeiros resultados são ótimos.


Falando em reciclagem, alguém sabe que fim se está dando para a quantidade absurda de entulho que vem sendo gerada pela demolição de casas e edifícios, mais o entulho das construções? Onde vai parar tudo isto.

Lembrando que há uma política federal sobre destino deesíduos que, como tudo neste país, deveria estar muito mais adiantada do que está. Pelo país lixões pupulam nos lugares mais distantes e escondidos. Já o entulho é frequente de se ver pela cidade, inclusive em bairros ricos. A rua Canada, no Jardim América, bairro para lá de nobre da cidade de São Paulo, que o diga. Alguém reclama? 

PSG 5 X 4 Bayern



O futebol que se prática por aqui é um bom reflexo do que é o Brasil: arbitragem que lembra o STF, jogadores caindo como que quisessem falar no celular durante o trabalho, visual selfie para se diferenciar, o técnico sempre é o culpado, assim como o empresário, patrocinadores ricos, mas curiosos, assim como os carrões milionários que circulam esnobando pelas ruas...

Vale notar que na Europa futebol é um dos esportes populares, uma das modalidades de grande público, sem esquecer as outras. Em outras palavras, todos importam, todos interessam. Aqui, Futebol, Ponto final. Lá, Europa, ou primeiro mundo, unidos, mesmo que diferentes, num objetivo coletivo, o que se reflete no esporte, nos esportes, na noção de trabalho coletivo, responsável, responsável pelo próprio grupo e consciente da responsabilidade por todos outros. Aqui, nós e eles, o outro é um inimigo, eu sou o único, eu sou o bom, eu sei, o que valida qualquer simulação de dor, o urrar o mal que outro faz, o erro grotesco do juiz em nome de uma "vitória arrasadora sobre o adversário, leia-se inimigo.

Nelson Piquet, o tri campeão de F1, disparou que para o brasileiro o segundo colocado é o primeiro perdedor. Definição correta, brilhante e trágica ao mesmo tempo. Assim trágica que terá quem qualificará ou desqualificará qualquer palavra de Piquet num nós e eles, coisa de país de semi deuses a serem seguidos.

"Perdemos porque ele não estava em campo". Responsabilidade coletiva?

Gostaria de estar da saída do estádio deste PSG 5 x 4 Bayern para ouvir os comentários do público. Duvido que os torcedores franceses tenham pensado de forma tão desrespeitosa dos torcedores alemães. Antes de ser futebol, é a arte de um continente. Por isto são o que são.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Anunciado o fim da Rádio Eldorado

Enviada a Rádio Eldorado 

A notícia é horrorosa, no que mais literal há no termo. E não digo isto de forma emocional, mas racionalmente, sim com uma forte dor emocional. Não sei o que acontece, mas posso imaginar, ou não. O ou não me preocupa mais ainda, a saúde do Estadão.

Um país, um futuro, se constrói sobre o respeito ao passado. Brasil está sendo trucidado faz tempo, em vários sentidos, mas especialmente em sua memória. O que vem acontecendo aqui em São Paulo é deprimente.

A perda de uma rádio de importância histórica, como a da Rádio Eldorado, deveria ser inaceitável, mas não é.

Nasci junto a ela, a Rádio Eldorado. Morro muito se realmente dia 15 de maio ela silenciar.

Ironia do destino, ao qual não tenho como agradecer, trabalhei para a Eldorado por dois anos.

Enfim, estou destruído.

Não tenho como agradecer a todos vocês que estão aí, por trás dos microfones, do aquário (estúdio), na redação e em outros.

Com profunda dor e de longe, estou com vocês neste tétrico velório.


Forte abraço a todos. Muito, muito, muito obrigado



quarta-feira, 22 de abril de 2026

Quem censurou?

Escrevi comentários em jornais sobre textos e artigos publicados. Publiquei e depois descobri que foram despublicados, ou seja, retirados dos comentários. Aconteceu duas vezes. A primeira veio uma explicação que li, mas não tinha nada a ver com meu texto. Não ofendi, não xinguei, não escrevi palavrões. Fiz críticas para alguns dos comentaristas generalizando: "precisamos conversar feito adultos", uma resposta aos que insistem em apontar o dedo para o outro, aquela história de "nós e eles" que trouxe o país, Brasil, onde estamos. Aliás, onde estávamos, a coisa dia a dia fica muito mais feia, coisa de aluno de 5ª série, como acaba de dizer um senador sobre o bate boca dos chefões, os pederosos lá de cima. 

Já entrei em jornal grande, no Estado de São Paulo, na Folha de São Paulo e Diário do Comércio de Recife. Em todos eles, num canto, em uma sala fechada e silenciosa, ficavam (e devem continuar) os revisores, um grupo de experientes leitores que lêem o jornal de cabo a rabo a procura de erros ou impropriedades. (Rindo vou escrever que) A redação é o inferno e os revisores são os santos da casa. Se não é isto, deve ir por aí.

A pergunta que me faço é se os comentários estão sendo revisados por IA. Como no fim de alguns dos textos publicados vem a informação do uso do IA, acredito que a triagem dos comentários também esteja sendo realizada por IA, o que acho muito perigoso. Aliás, depois da entrada em cena do IA nas redações o número de erro crassos, os que até eu pesco, aumentou muito, muito mesmo. De qualquer forma, tendo a acreditar que meus comentários caíram pelo IA. Se for isto, uau!
   

Mata a véia!

"Mata a véia!", dependendo de quem ou porque diz, também pode ser "Não mata a véia não"; sem exclamação.

Algo cai no chão e de bate pronto alguém solta um "Tá vivo. Mata, mata, mata!", e todos riem.

"Morre, morreu, antes ele do que eu", esta acho que não precisa comentários.

Meu cunhado, um piadista incontível, entrou em casa, e para minha mãe começou com uma das suas, "Sogra boa tem que ser como cerveja". Ela, rindo, sabia que vinha besteira da grossa, então pediu, "Vamos, termina", e ele disparou "Gelada e em cima da mesa". A gargalhada foi geral e incontida, inclusive de minha mãe.

Tem a politicamente incorreta, o sempre repetido "Bandido bom é bandido morto". Ditado burro digo eu, porque bandido bom é aquele vivinho da silva que dá com a língua nos dentes, traduzindo para a geração mais nova, dedura, entrega tudo, fornece informações para que outros entrem em cana.

E por aí vamos, mata tudo e todos. Não sobraria ninguém, nem nada. Tudo morto. Sobrariam risadas?

Numa sessão de cinema, os trailers foram todos um banho de sangue, contos de terror, assassinatos, lutas cheias de mortos. Isto antes do filme 'Drama', uma mistura de drama e suspense que tem como ponto de apoio para o seu roteiro uma ação violenta que não se realiza. Tudo gira em torno do quis matar, mas não matou, e da consequente reação coletiva a notícia. O que o banho de sangue dos trailers têm a ver com o filme não faço ideia, mas "mata!", da forma que for, porque é rentável, mui rentável, dindin. 
Nos filmes é ketchup, mas traduzindo, traz o desejo real e profundo da plateia: ver sangue quente jorrando. Se fosse sangue para valer, o de verdade, ia ter um bocado da plateia histérica e vomitando.

Faz um bom tempo Antônio Penteado Mendonça soltou num Crônicas da Cidade da Rádio Eldorado, um texto sobre como resolver a bagunça no legislativo: soltar algumas onças pardas esfomeadas no plenário e trancar as portas. (Enquanto escrevo isto dou risada). Como piada, como delírio libertador (?!?), funciona.

Voltando a coisa séria, que dá vontade, isto dá, mas resolve? Vontade do que? "Eu mato, eu pico, eu ponho no pinico", me dizia minha irmã quando ficava brava com minhas travessuras. 
Bem..., não, a história diz que não, que via de regra piora a situação. Gandhi e Mandela mostraram um caminho muito mais tranquilo, que não resolveu tudo, mas foi bom porque não deixou ou criou ressentimentos duradouros e perigosos.

Um dos mais brutais momentos de revanche, é a história de Vlad II, que ficou conhecido como o Empalador, ou Draculea, ou Conde Dracula (~ 1448) em suas inúmeras versões de grande sucesso. Empalador? Empalar é uma das técnicas de tortura e assassinato mais brutais já praticadas, transpassar um corpo com uma estaca. Não dou mais detalhes porque realmente é de revirar o estômago. Vlad II fez uma floresta de empalados, uns 5 mil, em vingança ao assassinato de sua amada mulher. No cinema, ou na imaginação do povo, um Dracula bem mais romantizado faz sucesso, mas Vlad II faria o mesmo sucesso na vida real?

Está claro que a humanidade quer dar um basta ao que incomoda. Vide os malucos que estão por aí em todas partes. Eu concordo em grau, gênero e número que o que temos hoje não está funcionando para grande parte do povo, mas daí partirmos para um banho de sangue banalizado é uma outra história.  
Incomodar é uma coisa, estar errado é outra. Estamos fazendo uma tremenda confusão aí. Segundo historiadores, nunca na história da humanidade os incômodos foram tão poucos, mesmo para os que tem maiores dificuldades.
Errar é humano,  as concordo que deve haver limites, e tem gente indo muito além, mas muito além...
Banalizar a morte, como está acontecendo aqui, é inaceitável. Como sabem que dificilmente serão pegos, então matam, fácil assim. É o viés inaceitável do "tá vivo? então mata!", aqui não falo sobre politicamente correto, mas o asquerosamente inaceitável.

Queremos soluções fáceis e rápidas. Mata! Será? Qual a dos filmes? De nossa imaginação fértil?
Uma coisa é certa: até ketchup espirada na blusa do outro cria confusão.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Obsolência programada? E se obtarmos pela durabilidade?

O carro teve um chileque e decidiu por conta própria que ia ficar com luzes e parte elétrica toda ligada. Bom, se deve dar um desconto a ele, velhinho, já com uns 20 anos de uso constante. E lá vai a dona à concessionária. A troca da peça sai por R$ 30 mil. O carro vale R$ 35 mil. A dona já sabia que a coisa estava ficando cara. Uma troca de lâmpada do farol tinha custado a bagatela de R$ 1.500,00, sim a "lampida", nada mais. Achou caro? Naquele modelo ainda se troca só a lambada, nos mais novos a lambada queimou só é possível a troca do conjunto ótico inteiro, ou seja, mais de R$ 5 mil, isto nos modelos mais simples. Nos de luxo? Não quero nem saber.

Se na década de 60 ou 70 dissesse que um dia as coisas ou não teriam conserto ou sairia uma fortuna, ninguém iria acreditar. Já sabíamos que tudo tinha vida útil, mas não que chegaríamos onde estamos. 

Em tempos passados não se falava em colapso do planeta. Já haviam sinais que a coisa não ia muito bem, como por exemplo na época das chuvas e de férias os bueiros começavam a vomitar água podre, isto onde havia esgoto, coisa rara então. Mas colapso estava fora de nossa imaginação. 

Naquele passado distante, uns 50 ou mais anos atrás, bateu o carro? Funileiro. Os caras eram mágicos, puxavam aqui, desentortavam ali, e o carro voltava a funcionar. Hoje se troca as peças tortas por novas, desmonta, joga no lixo, peça nova, encaixa, pintar, ponto final. Em tudo, quando compensa. "Deu PT". Como assim? "Perda total" Como assim??? "Não compensa consertar". Uau!

Você já viu o que se transformou um reparo de válvula de privada? Ou o courinho de torneira? Aquele que para parar o pinga pinga. Virou uma peça plástica sofisticada de alta tecnologia que acabou, descarta, compra e põe outra igual. Meio ambiente? Quem? Quanto tempo durava um courinho? Quanto dura um reparo destes novos? Qual o impacto ambiental? "Quem?" Mais, cadê o sujeito que faz o reparo? Quanto ele cobra? Quando ele vem! "O que?" Conversa de loucos.

Como criança sabia que se quebrasse a bicicleta não teria outra. Tinha que cuidar de tudo, porque era único, custava caro e não dava para comprar outro. Aliás, não fazíamos ideia do que era cultura do desperdício pela simples razão que era impensável desperdiçar. Coca-Cola? Uma garrafa, das de vidro, aos domingos, ou no aniversário, ponto final, sem mais conversa.

Sim, sabíamos o que era obediência programada... 

Corrigindo, sabíamos o que era obsolescência programada, ou pelo menos tínhamos uma noção do que era, mas nada como a loucura que vivemos hoje. 

Já obediência, a programada pelos pais, tios, avós, era para ser obedecida, ponto final, sem mais conversa... mesmo. Fez besteira? A insolência estava bem programada para a surra e o castigo. Quebrou, pagou! Ponto final.

Um rádio custava o que um rádio devia custar e uma escovinha de unha custava o que devia custar, pelo menos o custo fazia algum sentido. Hoje? A escovinha pode custar bem mais que um pequeno aparelho eletrônico fabricado dentro de um complexo processo industrial de alta tecnologia. É a escala de produção, está certo, mas não faz sentido que um pedaço de plástico com cerdas encaixadas, um processo industrial básico, de poucas etapas, possa custar mais que algo altamente tecnológico. As escovinhas já não duram tanto, o mesmo para as porcarias eletrônicas. 

Tive um celular Nokia, dos antigos, que caiu 10 andares, ficou submerso por uns 15 minutos, foi seco e voltou a funcionar. Uma amiga comprou um celular de última geração que deu defeito ainda novo. Recebeu um novo e o velho foi descartado, lixo, ponto final. Obsolescência programada?

Outra amiga levou sua bicicleta, uma 29, das básicas,  baratas, para trocar os pneus e fazer uma manutenção geral preventiva. O orçamento veio com R$ 2.600,00. Roubo? Não. O orçamento feito pela bicicletaria, tradicional e séria, foi padrão dentro do mercado: troca tudo por novo. Ou joga fora a antiga e compra uma bicicleta nova que vai custar uns trocados a mais em suaves prestações. Os pneus, estes sim tinham que ser trocados, mas o resto? Pelo que recomenda o manual do fabricante da corrente,  desgastou,  sim troca tudo, todo sistema de marchas. O jogo é este, se quiser joga, se não quiser dá o fora. 

Uma outra amiga trocou sua bicicleta depois que também levou a uma outra bicicletaria e o orçamento veio algo próximo de R$ 5.000,00, quase o preço de uma bicicleta nova. Roubo? Não, de novo, gente séria, com anos de mercado e montes de clientes. O que explica? Filosofia comercial, digo eu. Troca tudo, simples assim, e troca em nome da segurança do ciclista. Segurança do ciclista? A bicicleta estava funcionando perfeitamente, só tinha a quilometragem que o fabricante recomenda a troca da corrente. E o povo paga, seja porque não entende nada, seja porque não quer fazer feio na roda dos amigos ciclistas. 

Pausa para os comerciais 


De volta à programação 

Conta a história que a Phillips, uma marca inglesa impecável de bicicletas, que não dava defeito nunca, quase indestrutível, faliu na decada de 80, se não me falha a memória, por não querer baixar a qualidade.

Quer entender melhor o que 'foi' qualidade? Um dia, faz tempo, comprei uma bicicleta para levar para o museu de bicicleta. Detalhe: ela tinha rodado 50 anos sem fazer qualquer manutenção, só tendo trocado os pneus e câmaras. A corrente? Óbvio, muito gasta, mas rodando.

Em 1992 a Specialized deu um salto no mercado quando passou a entregar na caixa as bicicletas básicas já praticamente prontas para rodar. Era só tirar da caixa, encaixar e apertar alguns parafusos e sair rodando com segurança. Qualquer idiota conseguia, e a bicicleta funcionava bem, segura. Fizeram isto até porque a qualidade de serviço de boa parte das bicicletarias não atendia um padrão mínimo de qualidade. Ainda na fábrica as bicicletas recebiam ajustes básicos, o que fazia toda diferença no pedalar e na durabilidade do produto. 
Mike Sinyard, fundador da Specialized, recomendou ao Luiz que nunca desfazer-se das bicicletas do início dos anos 90. Ele estava certo. Naquela época obsolescência programada tinha um outro parâmetro. As velhinhas continuam por aí, deliciosas, impecáveis.


Ineptocracia



Ineptocracia, termo muito interessante, que calha bem para o largo momento que estamos vivendo neste país chamado Brasil. Aliás, eu digo, vivemos uma inepto-larapiocracia.

Fiquemos com a ineptocracia 'brasa', como tentaram emplacar como apelido na seleção brasileira. Faz sentido quando se olha para os últimos incêndios, o do prédio histórico no Paraná e o velódromo no Rio. Qual será o próximo. Aguardem que vira. Cultura? Cultura no Brasil? Esportes? Faça sua bet! Aposte que o número de endividados crescerá. Barbada.
Ineptos. Faz quantos anos que não temos um macro projeto de estado de longo prazo para o país? Remendos temos aos montes, em todos setores. As mudanças necessárias demoram anos, décadas para virem, e não raro quando vem chegam pela metade. Vide a reforma fiscal, décadas atrasada. Vide a segurança pública. Vide...

30 março de 2026, foi inaugurado o monotrilho que deveria ter ligado o Aeroporto de Congonhas com o estádio do São Paulo F. C., como obra para a Copa do Mundo de Futebol aqui, Brasil. Iniciada em 2010, deveria ser entregue em 2014, antes da Copa. Finito pela metade, ok, um terço, ok, pequena parte, ok, foi inaugurado, Thanks Gold!, doze anos depois. Uma das desculpas é que mudaram o estádio da Copa por vontade e desejo do Exce. Presidente. Saiu do Morumbi de ricos e foi para Itaquera de gente bem mais simples,  estádio novinho, dívida também... Não qualquer dívida, mas uma senhora dívida que ninguém sabe quando paga, isto se paga. E a torcida achou lindo. 
Nada fora do normal, o atraso, aumento de custo, obra abandonada por anos, transtornos, votos no candidato que ajudou na realização do sonho Corinthiano, mesmo que tenha sobrado uma dívida que não se sabe quem e quando será paga... Onde está e de quem é esse dinheiro? Sei lá? Duvido que alguém consiga contabilizar de forma que se entenda. UAI, se tem uma dívida monumental, quem segura a bronca?
Pelo menos os custos da obra parada se sabe. Como sempre custava tanto no projeto e custou tanto a n potência no final, dinheiro público, meu, teu, nosso, deles...Dinheiro público, portanto nas bundas de quem vai sobrar sabemos. Já o custo gerado pela mudança de projetos da Copa, quem sabe?

E a confusão no Oriente Médio vai rolando, vai rolando, vai rolando..., e se transformou num drama planetário. Vai sobrar para todo mundo. Alguém lá em Brasília pensou nesta possibilidade? Alguém estudou o que fazer com as possíveis (possíveis???) dificuldades e oportunidades que se apresentam com esta guerra? Qualquer um minimamente esclarecido ficaria com uma pulga na orelha, mas os 'inteligente', os 'eficiente', do Planalto não, eles sabem o que fazem. Sabem? 
Que o barril de pólvora que o instável (instável??, só isto?) presidente dos USA está armando acho que os inteligentes de Brasília já tenham sacado, mas daí a terem noção do que fazer, vai longo caminho a deriva.
Precisa de 'pobrema' vindo de fora? Não, não, não, mas servem bem como cortina de fumaça para a baderna caseira. Nada melhor que notícias sobre a viagem a lua para esquecer por um tempo os lunáticos caseiros.

Vamos para o que nos afeta diretamente. São Paulo está tendo com frequência congestionamentos de mais de 1.000 km. Tem solução? Sim, mas...
Ontem foi mais um dia de caos completo. Mesmo pedalando tive dificuldade para chegar onde devia. Estou cansado de repetir isto. Cada dia mais frequente e cada vez pior. Responsabilidade de um acidente? Não. Sem razão aparente. Que loucura. Alguma palavra sobre o que fazer? Sim, magias, milagres momentâneos, soluções. Soluções: qual é o plural e o aumentativo de soluço? Sim, soluções, tentativas de resolver aos soluços. IP! IP! IP! A médio longo prazo, alguma idéia inteligente? Qual? Desculpem, não ouvi ou não consigo entender.

Ineptocracia.

Aliás, olhando as primeiras páginas de jornais, vendo as notícias na TV, ouvindo rádio, melhor inepto-larapiocracia.

Temo fú! Ou vamos colocar a caixola para funcionar. E agir

Nunca na história deste país o nível geral foi tão baixo. O país caminha, mas como?
Nestes últimos dias tem ficado claro que o que mais se tem é inepto e larápio. Um país se faz de exemplos. Os nossos exemplos neste momento são Brasília e Rio de Janeiro. Vai dizer que não, que estou exagerando? 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Queima Brasil, queima

"O Brasil só tem jeito se jogarem uma bomba atômica". Cansei de ouvir esta irritação de gente que de fato quer ver este país ir para frente. 
Não precisa, a inteligência nacional toca fogo no que a gente tem de melhor. Começou com o Museu Nacional, ou começou antes, sei lá, definitivamente não quero lembrar, foi muito.
Desta vez foi o Velódromo do Rio.
A Santa Inquisição durou em torno de 600 anos, quanto anos mais durará nossa infame estupidez? Quanto é o que mais vamos permitir que vire cinzas?


Crianças doentes da cabeça


Eu fracassei no meu trabalho. É muito duro ler este Notas & Informações sobre a delicada saúde mental das crianças de São Paulo, e provavelmente de todo Brasil. No caos urbano, portanto social, que estamos metidos era de se esperar uma notícia destas. Triste, deprimente.

A função da bicicleta dentro das cidades vai muito além da tentativa de ajudar no trânsito, melhor a mobilidade, reduzir a poluição. Bicicleta está sendo introduzida mundo afora também para obter estes resultados tão divulgados e usados como ferramenta política, mas não só. 

Bem introduzida, ou seja, com intervenções urbanas inteligentes, principalmente com traffic calming, ou acalmamento de trânsito, reduz o ritmo da cidade, trazendo de volta a possibilidade da convivência justa de espaços públicos de forma prazerosa e com segurança, pela população, o que incluí mães, crianças, idosos e pessoas com necessidades especiais. Não aconteceu, não é o que vemos. O foco está só no aumento de kms segregados para ciclistas através da implantação de ciclovias e ciclofaixas, o que defino como 'a bicicleta, pela bicicleta, com a bicicleta', ponto.

Bicicleta bem introduzida, com inteligência e usando técnicas urbanas conhecidas e testadas faz décadas, diminui as tensões sociais, reduz a violência, melhora a saúde pública, fortalece a economia local, melhora a produtividade no trabalho e o rendimento escolar, dentre outros. Dados internacionais provam isto sem deixar sombra de dúvidas, não só na Europa, mas em todas localidades onde houve e há preocupação com a qualidade de vida na cidade. 

Parte de minha geração quis implantar através da bicicleta uma transformação urbana mais profunda. Com profunda tristeza vi tudo reduzido a ciclovias e ciclofaixas. Fomos inocentes, acreditamos que brasileiros tinham uma noção (vaga) sobre o que deve ser uma cidade. Não tinham e não tem e pelo jeito não estão interessados em ter. A selvageria urbana está aí para quem quiser ver e viver, pior, acreditando que isto é progresso. Coitadas de nossas crianças. O resultado está aí.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Hail Mari. A vantagem da falta de opções

Funcionária nova de fábrica de chocolate ganha o direito de comer quanto chocolate quiser. Não demora muito a 'liberdade' enjoa e o direito a escolha cai na realidade. Fazer o que quer e bem entende geralmente não é uma escolha interessante, menos ainda inteligente.

No meio do filme, na cena quando é dado três horas para o personagem principal decidir sua vida, viver ou morrer, simples assim, eu tive um acesso de gargalhada alta, incontida, solitária no meio de um cinema lotado. E quanto mais percebia que gargalhava solitário no meio de um silêncio geral incomodado, pior ficava meu descontrole sobre minha gargalhada incontida. Foi difícil me conter. Um dia aquele público jovem vai entender minha gargalhada. A vida vai lhes ensinar. Ou não, aí triste.

Ontem, no meio de um almoço de Páscoa, como convidado de uma família de boa condição social financeira e cultural, sentado na mesa frente a três meninas jovens, bem vestidas, lindas, com suas mães juntas, disparei que brincar com a liberdade, que elas têm para dar e vender, emprestar e jogar fora, um luxo para poucos, é uma tremenda desvantagem frente aos que vem do nada e têm fome de comer. Não ter muitas escolhas faz diferença. Minha verborragia saiu quando peguei o gancho na fala de uma das mães que dizia que a filha não se decide sobre o que fazer da vida, e que ela deveria partir para a vida, buscar um trabalho, entender como são as coisas, inclusive para se decidir. As meninas, bem educadas, prestavam atenção em silêncio. A para quem se dirigia a conversa ouviu com expressão neutra, consciente que tem o luxo da escolha no seu tempo, luxo que tem tudo para virar um lixo.

Ironia, outra pessoa, outra história. De manhã, cedinho, vem a ligação de vídeo. "Chega de besteira. Vou tocar para frente". Foi uma decisão demorada, difícil, e pela forma como foi dita parece que vai ser cumprinda, o que sei bem que não é fácil. Tendemos a nos acomodar, mesmo com o ruim.  

"Não existe liberdade sem disciplina", disparei para a mãe da menina que acredita saborear com prazer sua liberdade libertina de escolha para a vida. Sentada ao lado da filha a mãe concordou imediatamente comigo. "Trabalhei desde de nova. Sou executiva. Não tenho dúvida que tem que cair na vida, achar um trabalho qualquer, não importa o que, para saber o que quer". A filha, sorriso leve, cara de pastel, ouvia, e nós a sua volta vimos as letras entrarem por um ouvido, saírem pelo outro e baterem na testa das primas, estas sim atentas, decididas.

Três horas para decidir sua vida. Com o direito de uma escolha única, a que se deve fazer naquele momento, não a desejada, aquela ideal para os sonhos utópicos, líricos,  desejados, sobre tudo enganadores. 
Sem tempo para pensar. É aquilo ou aquilo mesmo, simples assim. Ser caça ou caçado, esta é a verdade constante na vida.

O cano da 45 foi batido no meio do olho esquerdo, engatilhado. Momentânea perda de visão, dor, volta o mundo desfocado. Numa fração de segundo toda vida veio à tona. Opção zero. A situação imediata impõe.

A urgência de uma reforma fiscal está rondando o governo e congresso faz décadas. Tudo desanda e todos continuam sem tomar posição. O gatilho está armado faz tempo, mas as vítimas, nós, provavelmente morreremos de inanicão. O gatilho foi acionado várias vezes, os tiros disparados um atrás do outro, vamos morrendo a cada minuto, mas nos acostumamos. 

Minha gargalhada, na cena das três horas para decidir o que o personagem faz da vida, me remete a minha própria vida. Quisera fosse assim, ou vai ou vai, teria sido bem mais fácil. Fácil talvez não, funcional, eficiente, cheio de possibilidades pela vida. Tendo vivido o luxo do luxo de terem me dado o pleno direito à escolha, qualquer, sinto profundamente inveja dos que não a tiveram. Tenho inveja dos que não ficaram parados no meio do campo verde, semeado, pronto para colheita, curtindo a beleza até que ela secasse. E a colheita fosse toda perdida. 

Final do almoço fiquei conversando com a mãe da linda jovem que não se decide. Uma nem-nem que tem tudo, pode tudo, recebe tudo, certa que o mundo é dela, que nada se acaba, tudo sempre será assim, tudo se ajeita, a delícia não vai se acabar.
Apavorante!

Queria ter sabido avaliar melhor as escolhas. Queria ter realizado uma verdade: não existe liberdade sem disciplina.